Você senta para fazer algo que gosta e, quando percebe, horas se passaram.
Talvez tenha esquecido de almoçar. Uma mensagem importante ficou sem resposta. Outra tarefa, que precisava ser feita naquele dia, nem chegou a ser iniciada.
Para quem olha de fora, isso pode parecer contraditório. Afinal, se o TDAH está associado a dificuldades de atenção, como alguém consegue permanecer tão concentrado em uma única atividade?
É justamente aí que aparece o chamado hiperfoco.
O termo ficou muito conhecido nas redes sociais e passou a ser tratado algumas vezes como uma característica típica do TDAH. Mas a ciência ainda está tentando entender exatamente o que ele representa, como deve ser medido e até que ponto é realmente diferente de outros estados de concentração intensa.
O que sabemos hoje é mais interessante do que simplesmente dizer que pessoas com TDAH “não conseguem focar” ou, no extremo oposto, que possuem um “superpoder de concentração”.
O que é hiperfoco?
Hiperfoco costuma descrever períodos de concentração intensa e prolongada em uma atividade.
Durante esses episódios, a pessoa pode ficar profundamente envolvida no que está fazendo, perder a noção do tempo e perceber menos os acontecimentos ao redor.
Interromper a atividade também pode ser difícil.
Em um dos primeiros estudos dedicados especificamente ao tema, pesquisadores avaliaram adultos com diferentes níveis de sintomas de TDAH e observaram que pessoas com mais sintomas relatavam episódios de hiperfoco com maior frequência, principalmente em atividades como hobbies, estudos e uso de telas. O estudo está disponível no PubMed.
Isso ajudou a transformar uma experiência descrita por muitas pessoas em algo que poderia ser estudado de forma mais sistemática.
Mas existe uma ressalva importante.
Hiperfoco não faz parte dos critérios de diagnóstico do TDAH
Ter episódios de concentração intensa não significa ter TDAH.
O hiperfoco não aparece como critério diagnóstico do transtorno e também não é exclusivo de pessoas com TDAH.
Uma revisão sobre o tema destacou justamente a dificuldade de definir o fenômeno de maneira uniforme. Diferentes estudos usam conceitos e formas de medição diferentes, o que torna mais difícil comparar os resultados.
Outro estudo com mais de mil adultos encontrou associação entre características de TDAH e relatos de hiperfoco, mas não encontrou diferenças claras entre pessoas diagnosticadas com TDAH e participantes sem diagnóstico em todas as medidas avaliadas. Os autores concluíram que experiências de hiperfoco não são específicas do TDAH. Veja o estudo no PubMed.
Isso significa que o hiperfoco pode ser relevante para compreender a experiência de algumas pessoas com TDAH, mas não deve ser usado como uma espécie de “teste informal” para o transtorno.
Então o problema do TDAH não é simplesmente falta de atenção
Uma maneira mais útil de entender o TDAH é pensar em dificuldades de regulação da atenção.
Nem sempre o desafio está em conseguir prestar atenção.
Às vezes está em direcionar a atenção para aquilo que precisa ser feito naquele momento, mantê-la quando a atividade oferece pouca estimulação e conseguir mudar de foco quando a situação exige.
Isso ajuda a entender uma situação bastante comum.
Uma pessoa pode passar horas envolvida em um jogo, projeto criativo ou assunto de interesse e, no mesmo dia, encontrar enorme dificuldade para responder um e-mail simples.
Não existe necessariamente uma contradição.
As duas situações exigem formas diferentes de controle da atenção.
Pesquisas recentes continuam mostrando que o funcionamento da atenção no TDAH é bastante complexo e não pode ser explicado por uma única alteração cognitiva. Uma revisão publicada em 2025, por exemplo, destaca que estudos ainda encontram grande variabilidade nos processos de atenção seletiva entre pessoas com TDAH.
Essa relação fica ainda mais clara quando observamos as funções executivas no TDAH, que participam do planejamento, controle de impulsos e capacidade de mudar de uma atividade para outra.
O que costuma prender a atenção durante o hiperfoco?
O hiperfoco frequentemente é associado a atividades que despertam muito interesse ou envolvimento.
Pode acontecer enquanto alguém programa, desenha, pesquisa um assunto, joga, escreve, monta algo ou trabalha em um projeto pessoal.
Mas seria exagero afirmar que existe uma fórmula do tipo “atividade interessante libera muita dopamina e causa hiperfoco”.
A neurobiologia é mais complicada.
O TDAH está relacionado a diferenças em sistemas cerebrais envolvidos em recompensa, motivação e controle cognitivo, e dopamina e noradrenalina fazem parte dessa história. Mas reduzir o hiperfoco a uma “explosão de dopamina” não representa bem o estado atual das evidências.
Se quiser entender melhor essa relação sem cair nessa simplificação, temos um conteúdo específico sobre TDAH e dopamina.
Um estudo de 2023 encontrou ainda uma associação interessante entre sintomas de TDAH, dificuldades em funções executivas e maior frequência de hiperfoco. Os autores observaram que dificuldades executivas explicavam parte da relação entre sintomas de TDAH e hiperfoco. O artigo pode ser consultado no PubMed.
Isso sugere que o fenômeno pode estar relacionado não apenas a entrar em um estado de concentração intensa, mas também à dificuldade de interromper e redirecionar essa atenção.
Hiperfoco e flow são a mesma coisa?
Os dois conceitos se parecem, mas não são exatamente iguais.
O chamado estado de flow costuma envolver uma experiência de profundo envolvimento em uma atividade, frequentemente acompanhada de sensação de controle, desafio adequado às habilidades e satisfação durante a execução.
No hiperfoco, a concentração intensa pode acontecer mesmo quando continuar naquela atividade já não é a melhor escolha.
A pessoa percebe que deveria parar, mas continua.
Pode ignorar fome, horário ou outras obrigações.
Um estudo de 2024 que validou um questionário para medir hiperfoco em adultos encontrou uma relação positiva entre hiperfoco e flow, mas a correlação entre os dois foi relativamente pequena. Isso reforça a ideia de que são fenômenos relacionados, mas não necessariamente iguais.
Quando o hiperfoco ajuda
É fácil entender por que algumas pessoas enxergam o hiperfoco como algo positivo.
Quando acontece em uma atividade importante, horas de concentração podem permitir avançar bastante em um projeto.
Esse envolvimento profundo pode ser útil em atividades criativas, estudos, hobbies e trabalhos que exigem concentração prolongada.
Mas chamar o hiperfoco de “superpoder do TDAH” pode criar uma imagem enganosa.
Nem sempre a pessoa escolhe onde esse foco será direcionado.
Passar quatro horas trabalhando em algo importante pode ser produtivo.
Passar quatro horas ajustando um detalhe pouco relevante enquanto outras tarefas urgentes continuam esperando é outra situação.
A diferença não está apenas na intensidade da concentração, mas no quanto a pessoa consegue controlar onde ela será usada e quando precisa parar.
Quando o hiperfoco começa a atrapalhar
O problema geralmente aparece quando o restante da rotina desaparece temporariamente da atenção.
Você decide pesquisar alguma coisa por alguns minutos e percebe que passou uma hora.
Começa uma tarefa durante a noite e continua trabalhando muito depois do horário planejado.
Ou entra em uma atividade interessante e percebe tarde demais que perdeu um compromisso.
Esse tipo de situação também pode piorar dificuldades de gestão do tempo no TDAH.
Uma revisão integrativa publicada em 2025 encontrou apenas dez estudos empíricos que investigavam experiências de concentração profunda relacionadas ao TDAH. Isso mostra que, apesar da popularidade do tema nas redes sociais, a literatura científica ainda é relativamente pequena.
Portanto, ainda existe muito que não sabemos.
Dá para controlar o hiperfoco?
Talvez “controlar” seja uma palavra forte demais.
Uma estratégia mais realista é criar condições para perceber mais cedo quando a concentração está ultrapassando o tempo planejado.
Alarmes podem ajudar quando existe um compromisso depois.
Um temporizador pode lembrar que é hora de verificar se ainda faz sentido continuar naquela tarefa.
Também pode ser útil definir previamente um ponto de parada.
Em vez de pensar “vou trabalhar nisso até terminar”, estabelecer algo como “às 18h vou parar e avaliar o que falta” cria uma interrupção externa.
Isso é especialmente útil porque lembrar espontaneamente de verificar o relógio durante um período de concentração intensa pode ser justamente a parte mais difícil.
Práticas de atenção plena também podem ajudar algumas pessoas a perceber melhor quando a atenção se desviou do objetivo original, embora não devam ser apresentadas como uma solução garantida. Temos uma análise específica em Mindfulness e Meditação para TDAH: Funciona Mesmo?.
A ciência ainda está começando a entender o hiperfoco
Um detalhe chama atenção quando se compara o hiperfoco à popularidade que ele ganhou nas redes sociais.
Falamos muito sobre ele, mas ainda temos relativamente poucos estudos.
Em 2024, pesquisadores validaram uma versão mais curta do Adult Hyperfocus Questionnaire, criada justamente para melhorar a forma como o fenômeno é medido em pesquisas. Nesse estudo, maiores escores de hiperfoco também estavam associados a mais características de TDAH, embora a amostra não tenha sido formada especificamente por pessoas diagnosticadas com o transtorno.
Pesquisas mais recentes continuam tentando entender como hiperfoco se relaciona com flexibilidade cognitiva, interesses, recompensas e diferentes contextos da vida cotidiana. Isso significa que muitas explicações populares ainda vão além daquilo que os estudos realmente demonstraram.
E talvez essa seja a principal informação a guardar.
O hiperfoco parece ser uma experiência relevante para muitas pessoas com TDAH.
Pode ajudar em algumas situações e atrapalhar bastante em outras.
Mas não é uma prova de TDAH, não acontece da mesma forma em todas as pessoas e ainda não temos uma explicação neurobiológica única para dizer exatamente por que ele ocorre.
Entender essas limitações não torna o fenômeno menos interessante.
Pelo contrário.
Ajuda a separar aquilo que as pessoas realmente vivenciam das explicações simplificadas que acabam se espalhando quando um tema científico se torna popular.
Referências e fontes
Hupfeld KE, Abagis TR, Shah P. Living “in the zone”: hyperfocus in adult ADHD. Attention Deficit and Hyperactivity Disorders. 2019.
Acessar o estudo no PubMed
Ashinoff BK, Abu-Akel A. Hyperfocus: the forgotten frontier of attention. Psychological Research. 2021.
Acessar o estudo no PubMed
Hupfeld KE et al. Validation of the dispositional adult hyperfocus questionnaire (AHQ-D). Scientific Reports. 2024.
Acessar o estudo no PubMed
Groen Y et al. The role of executive functions in mediating the relationship between adult ADHD symptoms and hyperfocus in university students. Research in Developmental Disabilities. 2024.
Acessar o estudo no PubMed
Experiences of deep concentration in individuals with attention deficit hyperactivity disorder (ADHD): an integrative review of the literature. 2025.
Acessar a revisão completa




