Esquecer compromissos, perder objetos, entrar em um cômodo e esquecer o que ia fazer ou ter dificuldade para recuperar uma informação pode fazer parte da rotina de muitos adultos com TDAH.
Com o passar dos anos, porém, pode surgir uma preocupação diferente:
“Será que esses esquecimentos aumentam meu risco de desenvolver Alzheimer no futuro?”
A pergunta ganhou ainda mais relevância em 2026, depois que grandes estudos encontraram uma associação entre TDAH e problemas cognitivos na vida adulta mais avançada.
Um deles acompanhou dados de 187.341 adultos com 50 anos ou mais. Outros trabalhos analisaram milhões de pessoas ou utilizaram informações genéticas para investigar a mesma possível relação.
Os resultados merecem atenção.
Mas também exigem bastante cuidado.
Até agora, a ciência não demonstrou que o TDAH causa Alzheimer. O que os pesquisadores encontraram foi uma associação estatística entre TDAH e maior ocorrência de comprometimento cognitivo ou demência em determinados grupos.
E essas duas afirmações são muito diferentes.
Alzheimer, demência e comprometimento cognitivo não são a mesma coisa
Antes de entender os estudos, precisamos separar alguns conceitos.
Demência é um termo amplo utilizado quando alterações na memória, raciocínio e outras capacidades cognitivas se tornam intensas o suficiente para interferir na vida cotidiana.
A doença de Alzheimer é uma das possíveis causas de demência e é a forma mais comum entre adultos mais velhos.
Existe ainda o comprometimento cognitivo leve, conhecido pela sigla MCI.
Nesse estágio, a pessoa apresenta dificuldades cognitivas maiores do que seria esperado para sua idade, mas geralmente ainda consegue realizar suas atividades cotidianas de forma independente.
Ter MCI também não significa necessariamente que alguém desenvolverá Alzheimer. Algumas pessoas permanecem estáveis e outras podem até apresentar melhora.
Essa distinção é fundamental porque o principal estudo publicado em outubro de 2026 não avaliou apenas Alzheimer.
Ele analisou novos diagnósticos de comprometimento cognitivo leve ou demência.
O que o grande estudo de 2026 encontrou?
O estudo foi publicado na revista científica JAMA Psychiatry e utilizou informações do programa norte-americano All of Us.
Foram analisados 187.341 adultos com 50 anos ou mais, acompanhados por uma média de aproximadamente dez anos.
Entre eles, 3.026 tinham diagnóstico registrado de TDAH.
Durante o acompanhamento:
6,7% das pessoas com TDAH desenvolveram comprometimento cognitivo, contra 3,4% das pessoas sem diagnóstico de TDAH.
Os pesquisadores também fizeram análises estatísticas considerando diferentes fatores que poderiam interferir nesse resultado, como condições médicas, transtornos psiquiátricos, escolaridade, utilização dos serviços de saúde e fatores genéticos.
Mesmo depois desses ajustes, a associação permaneceu.
Isso chamou bastante atenção porque o estudo não encontrou apenas uma diferença pequena entre os grupos.
Mas existe um detalhe essencial.
Isso não significa que uma pessoa com TDAH tenha quatro vezes mais chance de desenvolver Alzheimer
Algumas manchetes podem transformar resultados desse tipo em frases como:
“Quem tem TDAH possui quatro vezes mais risco de demência.”
Essa interpretação é simplificada demais.
Um dos modelos estatísticos do estudo encontrou um hazard ratio de 4,60 para comprometimento cognitivo. Entretanto, conforme os pesquisadores adicionaram diferentes fatores às análises, essa estimativa diminuiu.
Em uma análise que comparou pessoas com características mais semelhantes entre si, por exemplo, a associação ficou consideravelmente menor, embora continuasse estatisticamente significativa.
Além disso, hazard ratio não é a mesma coisa que probabilidade individual.
Isso significa que você não pode pegar esse número e concluir que uma pessoa com TDAH possui determinada porcentagem de chance de desenvolver demência.
O resultado descreve uma associação observada entre grupos.
Não prevê o futuro de uma pessoa específica.
E onde entra o Alzheimer nessa história?
Aqui está um dos pontos mais importantes deste artigo.
O estudo da JAMA Psychiatry agrupou comprometimento cognitivo leve e diferentes formas de demência.
Portanto, ele não permite afirmar que o TDAH aumenta especificamente o risco de doença de Alzheimer.
Uma meta-análise publicada em junho de 2026 ajuda a enxergar essa diferença.
Pesquisadores reuniram estudos envolvendo mais de 3,7 milhões de participantes e encontraram uma associação entre TDAH e demência por todas as causas.
Porém, quando tentaram analisar separadamente Alzheimer, demência vascular e demência com corpos de Lewy, havia poucos estudos disponíveis para chegar a uma conclusão sólida.
Ou seja:
há evidências crescentes de uma relação entre TDAH e comprometimento cognitivo na velhice, mas ainda não podemos afirmar que exista uma relação específica e comprovada entre TDAH e Alzheimer.
A genética trouxe outra pista interessante
Poucos dias depois do estudo da JAMA Psychiatry, outra pesquisa trouxe uma nova peça para esse quebra-cabeça.
O trabalho analisou 7.761 idosos inicialmente sem comprometimento cognitivo, utilizando dados de oito coortes do Alzheimer’s Disease Sequencing Project.
Os pesquisadores calcularam um chamado escore de risco poligênico para TDAH.
Esse escore não diagnostica TDAH. Ele reúne inúmeras variantes genéticas associadas estatisticamente ao transtorno para estimar uma predisposição genética.
Durante o acompanhamento, 1.347 participantes desenvolveram comprometimento cognitivo.
Pessoas no grupo com maior predisposição genética para TDAH apresentaram maior ocorrência de comprometimento cognitivo, definido nesse estudo como MCI ou demência por Alzheimer.
Isso torna a discussão ainda mais interessante porque sugere que parte da associação pode envolver mecanismos biológicos compartilhados.
Mas novamente precisamos evitar um salto na interpretação.
Predisposição genética não significa destino.
Então o TDAH causa alterações no cérebro que levam à demência?
Ainda não sabemos.
Existem várias explicações possíveis.
Pode haver fatores genéticos compartilhados.
Condições que aparecem com maior frequência em algumas pessoas com TDAH também podem influenciar a saúde cognitiva ao longo da vida.
Há ainda fatores relacionados a sono, saúde cardiovascular, atividade física, uso de substâncias, depressão e outras condições médicas.
Também existe um problema particularmente difícil para os pesquisadores: causalidade reversa.
Imagine uma pessoa de 60 anos que começa a apresentar dificuldades de atenção e memória.
Ela pode receber um diagnóstico tardio de TDAH.
Mas será que aquele TDAH realmente esteve presente desde a juventude ou algumas das dificuldades já faziam parte de um processo de declínio cognitivo que ainda não havia sido identificado?
Os pesquisadores do estudo de 2026 realizaram diferentes análises para tentar reduzir essa possibilidade, mas reconhecem que ela não pode ser completamente eliminada.
Esquecimento do TDAH é diferente de Alzheimer?
Em muitos casos, sim, mas não existe uma regra simples que permita diferenciar as duas condições sozinho.
Uma pessoa com TDAH pode esquecer uma informação porque sua atenção não estava totalmente presente quando ela deveria ter sido registrada.
É aquela situação clássica de colocar as chaves em algum lugar enquanto pensa em outra coisa e depois não lembrar onde deixou.
Isso não significa necessariamente que a memória armazenada foi perdida.
Já em doenças neurodegenerativas podem surgir mudanças progressivas na capacidade de aprender, armazenar ou recuperar informações, acompanhadas de alterações em outras funções cognitivas.
O mais importante é observar mudanças em relação ao funcionamento habitual da própria pessoa.
Se quiser entender melhor como memória e atenção se relacionam no transtorno, veja também TDAH e Memória: Como Melhorar sua Retenção de Informações Com Base na Ciência?.
Também vale complementar com O Cérebro com TDAH: Como a Neurociência Explica a Falta de Foco e Impulsividade.
E os medicamentos para TDAH?
Ainda não existe evidência suficiente para afirmar que medicamentos usados no tratamento do TDAH reduzam ou aumentem o risco futuro de demência.
Um estudo publicado em 2023 acompanhou mais de 109 mil adultos e encontrou associação entre TDAH adulto e demência.
Curiosamente, nessa pesquisa não apareceu um aumento claro do risco entre participantes com TDAH que utilizavam psicoestimulantes.
Os próprios autores alertaram, porém, que esse resultado não prova um efeito protetor da medicação. Estudos observacionais podem sofrer influência de vários fatores que não são completamente controlados.
O estudo de 2026 também não conseguiu avaliar adequadamente o impacto do tratamento realizado ao longo da vida sobre o risco cognitivo futuro.
Portanto, não é possível utilizar esses resultados para recomendar iniciar, interromper ou modificar medicamentos pensando em prevenção de Alzheimer.
O que uma pessoa com TDAH deve fazer com essa informação?
Primeiro, não transformar uma associação populacional em uma previsão pessoal.
A maioria dos resultados atuais fala sobre risco relativo entre grupos, não sobre o destino de cada indivíduo.
Também não faz sentido interpretar esquecimentos comuns do TDAH como sinais de Alzheimer.
O que merece atenção é uma mudança nova, progressiva e perceptível no funcionamento cognitivo, principalmente quando começa a interferir em atividades que antes eram realizadas normalmente.
Nessas situações, uma avaliação médica pode ajudar a investigar não apenas demência, mas também condições potencialmente tratáveis que afetam memória e atenção.
O National Institute on Aging destaca que alterações cognitivas podem ter diferentes causas e que nem todo comprometimento cognitivo leve evolui para Alzheimer.
Uma relação importante, mas ainda longe de estar completamente explicada
A pesquisa sobre TDAH durante o envelhecimento ainda é relativamente nova.
Durante muito tempo, o transtorno foi estudado principalmente em crianças e jovens.
Agora, as primeiras gerações acompanhadas com maior reconhecimento do TDAH estão chegando às idades em que alterações cognitivas e demências se tornam mais frequentes.
Os estudos de 2026 fortalecem uma hipótese importante: o TDAH pode estar associado a maior vulnerabilidade cognitiva ao longo do envelhecimento.
Mas três perguntas continuam abertas:
O TDAH participa diretamente desse risco?
Existem fatores genéticos ou de saúde compartilhados entre as condições?
E, principalmente, alguma intervenção ao longo da vida pode modificar esse risco?
Ainda não temos respostas definitivas.
Por isso, a mensagem mais correta não é:
“Quem tem TDAH vai desenvolver Alzheimer.”
Nem mesmo:
“TDAH causa Alzheimer.”
O que a ciência permite dizer hoje é mais cuidadoso:
pessoas com TDAH apresentaram maior ocorrência de comprometimento cognitivo e demência em vários estudos, mas a causa dessa associação e sua relação específica com a doença de Alzheimer ainda estão sendo investigadas.
E essa diferença muda completamente a maneira de interpretar a descoberta.
Referências e fontes
Bauer-Negrini G, Leffa DT, Ferreira PCL, et al. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Late-Life Cognitive Impairment. JAMA Psychiatry. Publicado online em 7 de outubro de 2026.
Baiamonte L, Bellante G, Allegra P, et al. Attention Deficit/Hyperactivity Disorder and Risk of Dementia: A Systematic Review and Meta-Analysis. Brain Sciences. 2026;16(6):646.
Attention-deficit/hyperactivity disorder polygenic risk score and incidence of cognitive impairment in older adults: A prospective multicohort study. Alzheimer’s & Dementia. Publicado em 15 de outubro de 2026.
Levine SZ, Rotstein A, Kodesh A, et al. Adult Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and the Risk of Dementia. JAMA Network Open. 2023;6(10).




