Terapia Online Para TDAH Funciona? O Que Muda em Relação à Presencial

Fazer terapia presencialmente nem sempre é simples.

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Pode faltar um profissional especializado perto de casa, o deslocamento consumir boa parte do dia ou os horários disponíveis simplesmente não combinarem com a rotina. Para quem tem TDAH, ainda existe outro detalhe: organizar compromissos, sair no horário e manter regularidade também pode se tornar um desafio.

Nesse cenário, a terapia online parece uma solução bastante atraente.

Mas surge uma dúvida importante: terapia online para TDAH funciona tão bem quanto estar na mesma sala com o terapeuta?

A resposta atual é mais interessante do que um simples sim ou não.

Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 comparou resultados de terapia cognitivo-comportamental realizada pela internet e presencialmente em adultos com TDAH. No curto prazo, as duas modalidades apresentaram benefícios. Depois de um ano, porém, algumas diferenças começaram a aparecer.

Antes de tudo, o que a terapia pode fazer pelo TDAH?

Quando pensamos em tratamento do TDAH, é comum a primeira associação ser com medicamentos.

Eles realmente ocupam um papel importante para muitos adultos. Mas reduzir desatenção ou impulsividade não resolve automaticamente todas as dificuldades construídas ao longo dos anos.

Uma pessoa pode conseguir se concentrar melhor e ainda continuar adiando tarefas.

Pode ter mais atenção e não saber organizar prioridades.

Pode perceber melhora nos sintomas, mas continuar acreditando que é incapaz porque passou anos acumulando atrasos, cobranças e frustrações.

É nesse espaço que intervenções psicológicas focadas no TDAH podem ajudar.

A terapia cognitivo-comportamental, conhecida como TCC, trabalha tanto comportamentos quanto padrões de pensamento. No contexto do TDAH adulto, pode ajudar a desenvolver estratégias para planejamento, organização, enfrentamento da procrastinação e manejo das dificuldades emocionais associadas ao transtorno.

Diretrizes do NICE incluem intervenções psicológicas estruturadas e focadas em TDAH entre as opções não farmacológicas para adultos em determinadas situações, podendo envolver elementos ou um programa completo de TCC.

Se quiser aprofundar a relação entre diferentes formas de tratamento, vale também ler Medicamentos Para TDAH Funcionam? O Que a Neurociência Realmente Diz!

O que foi comparado na pesquisa?

Aqui existe um detalhe importante.

A terapia online estudada não era simplesmente um aplicativo, vídeos gravados ou um curso que a pessoa fazia sozinha.

Os participantes faziam TCC em grupo pela internet, com acompanhamento de terapeutas e sessões realizadas por videoconferência. As câmeras permaneciam ligadas para favorecer a participação e permitir que os profissionais acompanhassem as reações dos participantes em tempo real.

O protocolo tinha 12 sessões.

Na modalidade presencial, os participantes também faziam TCC em grupo, mas dentro de uma sala de psicoterapia no Peking University Sixth Hospital.

A análise reuniu dados de 184 adultos com TDAH que utilizavam medicação de forma estável. Desses, 43 participaram da terapia online, 49 da presencial e 92 permaneceram no grupo de tratamento habitual.

Isso é importante porque os resultados não devem ser interpretados como se a terapia estivesse sendo testada isoladamente contra medicamentos.

No curto prazo, online e presencial funcionaram

Logo depois do período de tratamento, as duas modalidades apresentaram resultados positivos em comparação ao tratamento habitual.

Foram observadas melhorias em sintomas centrais do TDAH, ansiedade e qualidade de vida psicológica.

Quando online e presencial foram comparadas nesse momento, os resultados para sintomas do TDAH, pensamentos disfuncionais e qualidade de vida foram semelhantes. A terapia presencial apresentou uma vantagem maior especificamente na redução dos sintomas de ansiedade.

Esse resultado é relevante para quem imagina que uma sessão pela internet necessariamente perde todo o efeito terapêutico.

Pelo menos nessa população e nesse modelo estruturado de TCC, não foi isso que aconteceu no curto prazo.

Depois de um ano, apareceu uma diferença

Quando os pesquisadores voltaram a avaliar os participantes um ano depois, o cenário mudou.

Quem havia feito TCC presencial ainda apresentava benefícios significativos nos quatro aspectos avaliados pelo estudo: sintomas do TDAH, ansiedade, pensamentos disfuncionais e qualidade de vida psicológica.

No grupo online, os benefícios continuaram claramente presentes para os sintomas centrais do TDAH e para a qualidade de vida psicológica, mas não se mantiveram da mesma maneira em todos os resultados.

Nas comparações exploratórias entre as modalidades, a terapia presencial apresentou melhor manutenção dos benefícios ao longo desse período.

Isso não significa que terapia online “deixa de funcionar”.

Significa que, neste estudo, alguns ganhos pareceram mais duradouros na modalidade presencial.

E entender por que isso acontece pode ser tão importante quanto saber qual formato teve o melhor resultado.

O que a presença física pode acrescentar?

Terapia não é apenas receber informações.

Existe interação, vínculo, feedback, participação e construção de estratégias ao longo das sessões.

No estudo, os pesquisadores levantam hipóteses de que fatores como reestruturação cognitiva mais profunda, aliança terapêutica, feedback imediato e relação entre terapeuta e paciente possam ajudar a explicar a melhor manutenção observada no grupo presencial.

Mas isso ainda precisa ser investigado diretamente. O estudo não conseguiu provar que esses fatores foram a causa da diferença.

Em outras palavras, não podemos simplesmente concluir:

“Presencial funciona melhor porque existe mais conexão.”

É uma hipótese plausível, não uma resposta definitiva.

Então vale mais a pena fazer terapia presencial?

Não necessariamente.

Imagine alguém que mora longe de profissionais especializados em TDAH.

A opção pode não ser entre:

“terapia presencial ou terapia online?”

Pode ser entre:

“terapia online ou nenhuma terapia especializada.”

Nesse caso, a decisão muda bastante.

A modalidade online reduz deslocamentos e pode facilitar o acesso para quem mora longe, possui horários restritos ou enfrenta outras barreiras.

No próprio estudo, a terapia online apresentou boa adesão e um número relativamente menor de desistências logo após as 12 semanas, embora essa diferença não tenha permanecido significativa no acompanhamento de um ano.

Portanto, uma terapia um pouco menos favorável em determinado resultado de longo prazo ainda pode ser extremamente útil se for a modalidade que a pessoa realmente consegue manter.

Nem toda “terapia online” é igual

Esse talvez seja o maior cuidado ao interpretar a pesquisa.

Fazer TCC estruturada, em grupo, com terapeuta acompanhando ao vivo é muito diferente de baixar um aplicativo de saúde mental ou assistir a vídeos sobre organização.

Mesmo entre terapias online realizadas por profissionais existem diferenças.

Há atendimento individual e em grupo.

Sessões ao vivo e programas assíncronos.

Abordagens específicas para TDAH e terapias mais gerais.

Profissionais com diferentes níveis de experiência no transtorno.

Por isso, o estudo não permite afirmar que qualquer terapia pela internet produzirá os mesmos resultados.

Ele avaliou um formato bastante específico.

E se a pessoa também tiver ansiedade?

Essa é outra questão relevante porque ansiedade é comum entre adultos que procuram tratamento para TDAH.

No estudo, a terapia presencial apresentou resultados melhores na ansiedade tanto logo após o tratamento quanto na manutenção posterior.

Isso não significa que terapia online seja inadequada para quem tem ansiedade, mas reforça a importância de avaliar as necessidades individuais.

Se ansiedade interfere bastante na sua rotina, vale complementar esta leitura com TDAH e Ansiedade: O Que a Neurociência Diz Sobre Essa Relação?

O tratamento precisa olhar para a pessoa inteira, não apenas para a dificuldade de atenção.

Um estudo importante, mas ainda não é a resposta definitiva

Existe uma limitação especialmente importante nessa pesquisa.

Os participantes não foram sorteados dentro de um único estudo para receber terapia online ou presencial.

Os pesquisadores fizeram uma análise secundária reunindo dados de dois ensaios clínicos realizados em períodos diferentes. O grupo presencial foi recrutado antes da pandemia, enquanto o grupo online foi recrutado durante a pandemia.

Os próprios autores reconhecem que diferenças entre esses períodos podem ter influenciado engajamento, adesão e resultados. Eles defendem a realização de novos estudos que comparem diretamente os dois formatos dentro do mesmo ensaio clínico.

Isso muda bastante a interpretação.

O estudo sugere que a terapia presencial pode apresentar vantagens na manutenção de alguns benefícios, mas ainda não permite decretar que presencial seja simplesmente “melhor” para todo adulto com TDAH.

A melhor terapia também precisa caber na sua vida

Escolher entre online e presencial não deveria ser uma disputa sobre qual modalidade é superior em qualquer situação.

Talvez a pergunta mais útil seja:

Qual formato permite que eu encontre um profissional adequado, participe regularmente e realmente coloque as estratégias em prática?

A terapia presencial pode favorecer certos aspectos da interação e, nesse estudo, apresentou resultados mais consistentes depois de um ano.

A terapia online, por outro lado, também reduziu sintomas e melhorou a qualidade de vida, além de oferecer uma possibilidade real de acesso para pessoas que talvez não conseguissem fazer acompanhamento presencial.

No fim, localização importa.

Horário importa.

Vínculo com o profissional importa.

A experiência do terapeuta com TDAH importa.

E a sua capacidade de continuar comparecendo também importa.

A melhor modalidade não é necessariamente aquela que parece perfeita no papel.

É aquela que oferece um tratamento adequado e que você consegue transformar em parte consistente da sua vida.

Referências e fontes

Pan M, Zhang S, Zhao M, et al. Therapist-guided Internet-delivered versus Face-to-face CBT for Adults with ADHD: Differential Long-Term Maintenance and Exploratory Correlational Pathways. Journal of Attention Disorders. Publicado online em 9 de setembro de 2026.

Acessar o estudo original no Journal of Attention Disorders

National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management.

Consultar as recomendações do NICE

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