Há alguns anos, era relativamente raro ouvir um adulto dizer que tinha TDAH. Hoje, o assunto aparece nas redes sociais, em podcasts, nas conversas entre amigos e até no ambiente de trabalho.
Com isso, surgiu também uma pergunta quase inevitável:
TDAH virou moda?
Para algumas pessoas, o aumento dos diagnósticos parece sinal de exagero. Para outras, estamos finalmente reconhecendo um transtorno que durante décadas passou despercebido em muita gente.
A resposta não cabe em nenhum desses extremos.
Os diagnósticos de TDAH realmente aumentaram em diferentes países e faixas etárias. Mas isso não significa, necessariamente, que o transtorno tenha se tornado repentinamente mais comum ou que todo novo diagnóstico seja inadequado.
Mudanças nos critérios, maior conhecimento sobre o TDAH, mais acesso à saúde, reconhecimento em mulheres e adultos e novas formas de procurar ajuda fazem parte dessa história.
E pesquisas recentes estão ajudando a entender melhor o que está acontecendo.
Sim, mais pessoas estão recebendo diagnóstico de TDAH
O aumento não é apenas uma impressão causada pelas redes sociais.
Dados dos Estados Unidos mostram que cerca de 15,5 milhões de adultos tinham diagnóstico de TDAH em 2023, e mais da metade deles havia recebido o diagnóstico somente na vida adulta.
Entre crianças e adolescentes norte-americanos, dados coletados em 2024 estimaram aproximadamente 7 milhões de pessoas entre 3 e 17 anos com diagnóstico atual de TDAH.
Outro estudo, realizado no Canadá com dados de mais de 2,7 milhões de crianças e jovens de até 29 anos, encontrou aumento dos novos diagnósticos entre 2003 e 2023.
Esse crescimento se acelerou depois de mudanças nos critérios diagnósticos e novamente após a pandemia, com um aumento particularmente forte entre adolescentes do sexo feminino e mulheres jovens.
Portanto, a pergunta não é se os diagnósticos aumentaram.
Eles aumentaram.
A questão mais interessante é entender por quê.
Mais diagnósticos não significam necessariamente mais pessoas desenvolvendo TDAH
Imagine uma cidade onde existem 1.000 pessoas com determinada condição, mas apenas 300 sabem disso.
Se alguns anos depois 600 receberem o diagnóstico correto, o número registrado de casos terá dobrado.
Isso não significa que a condição dobrou na população.
Significa que mais pessoas foram identificadas.
Essa diferença entre a existência de uma condição e a quantidade de pessoas diagnosticadas é essencial para compreender o TDAH.
Um estudo publicado em setembro de 2026 no JAMA Psychiatry analisou registros nacionais da Dinamarca e acompanhou mudanças nos diagnósticos de TDAH e autismo entre 2012 e 2022.
Foram incluídos 71.317 crianças e adolescentes diagnosticados com TDAH ou autismo, comparados a mais de 713 mil pessoas sem esses diagnósticos.
Ao longo dos anos, algumas características que antes distinguiam mais claramente os grupos diagnosticados foram se tornando menos marcantes.
Uma das interpretações dos pesquisadores é que o crescimento dos diagnósticos pode refletir mudanças na capacidade dos serviços de saúde e na maneira como esses transtornos são reconhecidos, e não necessariamente uma mudança rápida nos fatores que causam o TDAH.
Em outras palavras, a rede de diagnóstico pode estar alcançando pessoas que anteriormente passariam despercebidas.
Durante muito tempo, existiu uma imagem limitada de quem “parecia ter TDAH”
Pense na imagem clássica associada ao TDAH décadas atrás.
Um menino inquieto.
Levanta durante a aula.
Fala demais.
Interrompe colegas.
Tem dificuldade de seguir regras.
Esse perfil existe, mas representa apenas uma parte das pessoas com o transtorno.
Quem apresentava principalmente desatenção, procrastinação, dificuldade de organização, problemas com gerenciamento do tempo ou sintomas menos visíveis podia facilmente passar anos sem levantar suspeitas.
Isso ajuda a compreender por que tantas pessoas recebem diagnóstico apenas depois de adultas.
É comum olhar para trás depois da avaliação e perceber sinais que já existiam havia muitos anos, mas que recebiam outros nomes:
“É distraído.”
“É desorganizada.”
“Tem potencial, mas não se esforça.”
“Vive no mundo da lua.”
“Deixa tudo para a última hora.”
A dificuldade estava presente. O significado dado a ela era outro.
Se você quiser entender como essa investigação acontece na vida adulta, vale complementar a leitura com Como é Feito o Diagnóstico de TDAH em Adultos? O Que Realmente é Avaliado, que explica por que não existe um exame isolado capaz de confirmar o transtorno.
Mulheres são um bom exemplo de diagnóstico que pode chegar tarde
O aumento dos diagnósticos entre mulheres chama bastante atenção.
Durante muito tempo, pesquisas e critérios clínicos foram fortemente influenciados por amostras masculinas e pelas manifestações mais externas do TDAH.
Meninas com sintomas predominantemente desatentos tendem a chamar menos atenção do que crianças muito hiperativas ou impulsivas.
Na prática, uma menina pode ir bem na escola, não criar problemas de comportamento e ainda gastar um enorme esforço tentando acompanhar prazos, materiais e tarefas.
Esse padrão pode continuar na vida adulta até que o volume de responsabilidades fique difícil demais de compensar.
O estudo canadense publicado em 2026 encontrou justamente um crescimento particularmente intenso de novos diagnósticos após a pandemia entre adolescentes e mulheres jovens.
Isso não prova que todo aumento seja simplesmente a correção de diagnósticos perdidos no passado.
Mas mostra por que olhar apenas para o número crescente pode levar a uma interpretação incompleta.
E as redes sociais? Elas influenciaram tudo isso?
Seria difícil dizer que não.
TikTok, Instagram, YouTube e outras plataformas colocaram o TDAH diante de milhões de pessoas que talvez nunca procurassem informações sobre o assunto espontaneamente.
Isso pode ter um lado positivo.
Alguém assiste a um conteúdo sobre desorganização, impulsividade ou dificuldades executivas, reconhece um padrão antigo e decide procurar avaliação profissional.
Nesse caso, as redes funcionaram como porta de entrada para buscar ajuda.
O problema aparece quando conteúdos complexos são reduzidos a frases como:
“Se você faz isso, provavelmente tem TDAH.”
Gostar de várias coisas ao mesmo tempo não confirma TDAH.
Procrastinar não confirma TDAH.
Esquecer objetos também não.
Ter dificuldade para se concentrar em uma tarefa entediante muito menos.
Muitos sintomas associados ao transtorno fazem parte da experiência humana em algum grau. O diagnóstico depende de frequência, intensidade, histórico, prejuízo e contexto.
Por isso, mais informação pode melhorar o reconhecimento, mas informação ruim também pode favorecer autodiagnósticos equivocados.
Então existe sobrediagnóstico?
Essa pergunta merece uma resposta cuidadosa.
É possível que ocorram diagnósticos inadequados.
Nenhum sistema de saúde é perfeito, e o TDAH não possui um exame laboratorial capaz de eliminar toda subjetividade da avaliação.
Ao mesmo tempo, isso não significa que o crescimento dos diagnósticos seja explicado principalmente por sobrediagnóstico.
Especialistas discutem há anos tanto o risco de diagnóstico excessivo quanto o problema oposto: pessoas que apresentam prejuízos importantes e nunca são identificadas.
Um comentário publicado no JAMA Network Open em 2026 destacou justamente esse cuidado. O autor argumenta que o debate não deveria ficar preso apenas à pergunta “há diagnósticos demais?”, mas também avaliar se as pessoas que realmente precisam de atendimento estão sendo reconhecidas e tratadas adequadamente.
Esse é um ponto importante.
Podem existir, ao mesmo tempo, pessoas diagnosticadas incorretamente e pessoas com TDAH que continuam sem diagnóstico.
Uma realidade não anula a outra.
Mudanças nos critérios também influenciam os números
A maneira como profissionais identificam o TDAH mudou com o passar dos anos.
O DSM-5, manual utilizado como referência diagnóstica em diversos países, ampliou alguns critérios em relação à versão anterior.
Entre as mudanças, a idade considerada para presença de sintomas na infância passou de antes dos 7 anos para antes dos 12 anos.
Isso possibilitou reconhecer pessoas que apresentavam sintomas clinicamente importantes, mas não se encaixavam perfeitamente no critério anterior. Especialistas apontam essa mudança como um dos fatores que podem ter contribuído para o crescimento observado nos diagnósticos.
Também existe hoje maior conhecimento sobre como o transtorno se manifesta ao longo da vida.
O adulto com TDAH não precisa parecer uma criança hiperativa que cresceu.
A hiperatividade pode mudar.
As demandas mudam.
Os mecanismos usados para compensar dificuldades também mudam.
Consequentemente, nossa capacidade de reconhecer o transtorno mudou.
A pandemia também entrou nessa história
Os dados canadenses encontraram uma aceleração dos diagnósticos depois do período inicial da COVID-19.
Isso pode ter várias explicações.
Mudanças abruptas de rotina, trabalho remoto, ensino à distância e maior demanda por autonomia podem ter tornado dificuldades antes compensadas muito mais evidentes.
Imagine alguém que funcionava bem porque sua vida tinha horários rígidos, deslocamento para o trabalho e uma estrutura externa organizada.
De repente, tudo passou a depender de autogerenciamento.
Planejar o dia.
Ignorar distrações dentro de casa.
Administrar prazos.
Começar tarefas sem supervisão externa.
Para algumas pessoas, dificuldades executivas ficaram muito mais visíveis.
Isso não significa que a pandemia tenha “criado TDAH” nessas pessoas. Ela pode ter mudado o contexto no qual sintomas já existentes precisavam ser administrados.
O perigo de transformar o debate em “moda ou doença”
Talvez esse seja o maior problema da discussão.
De um lado:
“Hoje todo mundo tem TDAH.”
Do outro:
“Todo aumento de diagnóstico significa avanço.”
A realidade é mais complicada.
Mais conhecimento pode corrigir anos de subdiagnóstico.
Critérios melhores podem identificar pessoas antes ignoradas.
Maior acesso à saúde pode elevar os números registrados.
Redes sociais podem incentivar alguém a procurar ajuda.
Mas também podem banalizar sintomas e estimular interpretações equivocadas.
Por isso, o número de diagnósticos sozinho não responde se estamos diagnosticando bem ou mal.
A pergunta mais importante é outra:
as pessoas estão passando por avaliações cuidadosas e recebendo ajuda adequada para dificuldades que realmente prejudicam suas vidas?
TDAH não virou moda. O assunto ficou mais visível
É compreensível sentir que o TDAH está em todo lugar.
Realmente falamos muito mais sobre ele hoje.
Mas visibilidade e existência são coisas diferentes.
Durante décadas, muitas pessoas atravessaram escola, faculdade, trabalho e relacionamentos sem compreender por que determinadas tarefas pareciam exigir um esforço muito maior.
Hoje, algumas delas finalmente chegam a uma avaliação.
Isso não significa aceitar qualquer autodiagnóstico encontrado em um vídeo de 30 segundos.
Também não significa tratar todo novo diagnóstico com desconfiança.
O melhor caminho continua sendo o mesmo: informação de qualidade, avaliação profissional cuidadosa e atenção ao impacto real dos sintomas na vida da pessoa.
Talvez o TDAH não tenha virado moda.
Talvez tenhamos apenas começado a enxergar melhor algo que sempre esteve ali.
Referências e fontes
Tarp ME, Lousdal ML, Rask CU, et al. Changes in Characteristics Associated With ADHD and ASD Diagnoses Over Time. JAMA Psychiatry. Publicado online em 9 de setembro de 2026.
Acessar o estudo original no JAMA Psychiatry
Cui Z, Ambasta A, Thompson W, et al. DSM-5 Changes, COVID-19, and ADHD Diagnosis Rates in Individuals Younger Than 30 Years. JAMA Network Open. 2026.
Acessar o estudo original no JAMA Network Open
Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Dados sobre TDAH em adultos e crianças.
Dados do CDC sobre TDAH em adultos




