Você abre o computador para terminar um trabalho.
Antes de começar, percebe uma mensagem no celular e resolve responder. Depois lembra que precisava pagar uma conta. Abre o aplicativo do banco, vê outra notificação e, alguns minutos depois, percebe que o trabalho continua exatamente onde estava.
Em outro dia, acontece o contrário.
Você sabe que tem várias coisas importantes para fazer, mas não consegue decidir por qual começar. Quanto mais pensa nas tarefas acumuladas, mais difícil parece dar o primeiro passo.
Situações assim podem acontecer com qualquer pessoa. No TDAH, porém, dificuldades com organização, planejamento, memória, controle de impulsos e conclusão de tarefas podem aparecer com frequência suficiente para prejudicar estudos, trabalho e vida pessoal.
Parte disso está relacionada às chamadas funções executivas.
Elas ajudam a transformar uma intenção em ação. Entender como funcionam também ajuda a explicar por que alguém pode saber perfeitamente o que precisa fazer e, mesmo assim, encontrar tanta dificuldade para começar ou terminar.
O que são funções executivas?
Funções executivas é o nome dado a um conjunto de processos mentais envolvidos no controle do comportamento direcionado a objetivos.
Na prática, elas entram em ação o tempo inteiro.
Quando você precisa lembrar uma informação enquanto faz outra coisa, resistir à vontade de olhar o celular, mudar de estratégia porque algo deu errado ou organizar as etapas de um projeto, está usando diferentes aspectos das funções executivas.
Entre os processos mais estudados estão a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva.
A memória de trabalho permite manter informações temporariamente disponíveis enquanto elas estão sendo utilizadas.
É o que acontece quando alguém passa um número de telefone e você precisa mantê-lo na cabeça por alguns segundos até conseguir digitá-lo.
O controle inibitório ajuda a impedir algumas respostas automáticas ou impulsivas.
Já a flexibilidade cognitiva participa da capacidade de mudar de estratégia ou adaptar o comportamento quando uma situação exige.
Na vida real, esses processos raramente funcionam de maneira isolada.
Preparar uma refeição, chegar no horário a um compromisso ou entregar um trabalho dentro do prazo pode exigir vários deles ao mesmo tempo.
Como essas dificuldades aparecem no TDAH?
Nem sempre uma dificuldade executiva parece diretamente um problema de atenção.
Às vezes ela aparece como desorganização.
A pessoa começa várias tarefas, mas termina poucas.
Em outros momentos, o problema é o tempo.
Uma atividade que parecia levar 20 minutos ocupa uma hora inteira, enquanto outra é adiada repetidamente porque parece grande demais para começar.
Também pode acontecer de alguém entrar em um cômodo e esquecer o que foi buscar, ouvir uma sequência de instruções e perder parte delas ou lembrar de um compromisso somente depois que o horário passou.
Essas situações podem envolver memória de trabalho, organização, controle da atenção e capacidade de manter um objetivo ativo enquanto outras coisas acontecem.
Por isso, o esquecimento no TDAH nem sempre significa que uma informação simplesmente desapareceu da memória.
Muitas vezes, a dificuldade está em conseguir manter aquela informação acessível exatamente no momento em que ela é necessária.
Esse assunto aparece com mais detalhes no artigo TDAH e Esquecimento: Por Que Você Esquece Até Coisas Importantes?, no qual explicamos a relação entre atenção, memória e aqueles momentos em que uma informação parece simplesmente escapar.
Pessoas com TDAH têm funções executivas piores?
Essa pergunta não tem uma resposta tão simples.
Pesquisas encontram diferenças em tarefas relacionadas às funções executivas quando grupos de pessoas com TDAH são comparados com pessoas sem o transtorno. Mas existe uma grande variação entre indivíduos.
Uma revisão publicada na Nature Reviews Psychology discute justamente essa heterogeneidade e mostra que não existe um único perfil neurocognitivo capaz de representar todas as pessoas com TDAH.
Isso ajuda a explicar algo que pode parecer contraditório.
Uma pessoa pode ter muita dificuldade para organizar documentos, administrar horários ou começar uma tarefa repetitiva e, ao mesmo tempo, conseguir resolver problemas complexos quando o assunto desperta interesse.
Outra pode ser bastante organizada profissionalmente, mas depender de calendários, alarmes e rotinas muito estruturadas para manter essa organização.
Por isso, dizer simplesmente que alguém com TDAH tem “funções executivas ruins” reduz demais uma questão que é muito mais complexa.
Por que começar uma tarefa pode ser tão difícil?
Esse é um dos pontos que mais confundem quem convive com o TDAH.
A pessoa sabe que precisa fazer algo.
Ela entende que aquilo é importante.
Pode até estar preocupada porque o prazo está chegando.
Mesmo assim, não começa.
Isso costuma ser interpretado por quem está de fora como falta de vontade.
Mas iniciar uma tarefa exige mais do que saber que ela precisa ser feita.
É necessário definir um ponto de partida, ignorar outras possibilidades, manter o objetivo em mente e organizar uma sequência de ações.
Quando uma tarefa é vaga, longa ou pouco estimulante, esse processo pode ficar ainda mais difícil.
Compare estas duas situações:
“Preciso organizar minha vida financeira.”
“Vou abrir o aplicativo do banco e anotar as três contas que vencem esta semana.”
Na segunda situação, existe uma ação concreta. A pessoa não precisa decidir tantas coisas antes de começar.
Dividir uma atividade em etapas menores não resolve o TDAH, mas pode diminuir parte da carga necessária para iniciar aquela tarefa.
O problema também pode aparecer na hora de escolher prioridades
Imagine uma lista com dez tarefas.
Duas são realmente urgentes.
Quatro podem esperar.
As outras nem precisariam ser feitas hoje.
Mesmo assim, tudo parece igualmente importante.
Também pode acontecer o contrário. Uma tarefa pequena e interessante chama tanto a atenção que acaba ocupando o tempo que deveria ser usado em algo mais importante.
Priorizar exige comparar consequências, prazos e esforço necessário. Também exige manter essas informações presentes enquanto uma decisão está sendo tomada.
Por isso, listas enormes nem sempre ajudam.
Em alguns casos, elas apenas tornam mais visível tudo aquilo que ainda não foi feito.
Uma alternativa é reduzir a lista diária para poucas prioridades e deixar as demais tarefas registradas em outro local.
No artigo Como Priorizar Tarefas Quando Você Tem TDAH, mostramos outras formas de organizar as demandas quando parece que tudo precisa ser feito ao mesmo tempo.
Esquecer menos nem sempre significa tentar lembrar mais
Quem sofre com esquecimentos frequentes costuma tentar resolver o problema fazendo mais esforço para lembrar.
Nem sempre funciona.
Se parte da dificuldade envolve memória de trabalho ou atenção, depender somente da lembrança pode ser pouco eficiente.
É por isso que estratégias externas podem ajudar.
Calendários, lembretes, alarmes e listas reduzem a quantidade de informações que precisam permanecer mentalmente disponíveis.
Um compromisso importante não precisa ficar sendo lembrado durante três dias se existe um alerta programado para o momento certo.
O mesmo vale para objetos.
Se algo precisa sair de casa com você pela manhã, colocá-lo perto da porta na noite anterior pode funcionar melhor do que repetir várias vezes “não posso esquecer”.
São ajustes simples, mas fazem com que determinadas tarefas dependam menos da memória naquele momento.
Rotinas podem diminuir o número de decisões
Para algumas pessoas com TDAH, a palavra rotina soa como algo extremamente rígido.
Não precisa ser assim.
Uma rotina pode servir apenas para diminuir a quantidade de pequenas decisões tomadas todos os dias.
Se determinados comportamentos acontecem sempre em uma sequência parecida, é necessário pensar menos sobre qual deverá ser o próximo passo.
Isso pode ser especialmente útil pela manhã, quando várias tarefas competem pela atenção ao mesmo tempo.
Deixar as roupas separadas, ter um local fixo para chaves e carteira e seguir uma sequência simples antes de sair de casa pode evitar parte do improviso diário.
Falamos mais sobre esse tipo de organização em Como Criar uma Rotina Matinal Eficaz para Adultos com TDAH.
E quando a pessoa consegue ficar horas concentrada?
Esse é outro motivo pelo qual as funções executivas podem ser mal compreendidas.
Se alguém consegue passar três horas concentrado em um jogo, projeto ou assunto de interesse, parece estranho dizer que essa mesma pessoa apresenta dificuldades relacionadas à atenção.
Mas atenção não funciona apenas como um interruptor que fica ligado ou desligado.
No TDAH, a dificuldade pode envolver a capacidade de direcionar e regular a atenção de acordo com aquilo que a situação exige.
Uma atividade interessante, nova ou altamente estimulante pode prender a atenção por muito tempo.
Enquanto isso, uma tarefa importante, porém repetitiva, pode ser extremamente difícil de iniciar.
Esse padrão também aparece nas discussões sobre hiperfoco. No artigo Neurociência do Hiperfoco no TDAH, explicamos melhor por que alguém pode apresentar grande concentração em algumas situações e muita dificuldade em outras.
Estratégias ajudam, mas não substituem tratamento quando ele é necessário
Organizar o ambiente, dividir tarefas em etapas menores e utilizar lembretes pode facilitar bastante o cotidiano.
Mas essas estratégias não substituem avaliação e tratamento quando os sintomas estão causando prejuízo significativo.
O National Institute of Mental Health apresenta medicamentos e psicoterapia entre as possibilidades utilizadas no tratamento de adultos com TDAH.
A terapia cognitivo-comportamental também pode ajudar no desenvolvimento de estratégias relacionadas à organização, planejamento e manejo de comportamentos que dificultam o cotidiano.
As diretrizes do NICE para diagnóstico e tratamento do TDAH também consideram diferentes possibilidades de intervenção, incluindo tratamento medicamentoso e intervenções psicológicas estruturadas, dependendo das necessidades de cada pessoa.
Não existe uma única estratégia adequada para todo mundo.
A escolha do tratamento precisa considerar sintomas, histórico, impacto na vida cotidiana e avaliação profissional.
Entender a dificuldade pode ajudar a encontrar uma estratégia melhor
Quando alguém passa anos sendo chamado de desorganizado, distraído ou preguiçoso, é fácil começar a interpretar toda dificuldade como uma falha pessoal.
Entender como as funções executivas participam dessas situações permite olhar para o problema de outra maneira.
Se a dificuldade é começar, talvez seja necessário tornar o primeiro passo mais claro.
Se o problema é esquecer, pode ser melhor tirar a informação da cabeça e colocá-la em um lembrete.
Se tudo parece urgente, talvez seja necessário reduzir o número de prioridades visíveis naquele momento.
E se essas dificuldades estão prejudicando trabalho, estudos, relacionamentos ou tarefas básicas do dia a dia, uma avaliação profissional pode ajudar a entender melhor o que está acontecendo.
As funções executivas não explicam sozinhas toda a experiência de quem tem TDAH.
Mas ajudam a compreender por que, em certos momentos, pode existir uma distância tão grande entre saber o que precisa ser feito e conseguir transformar esse conhecimento em ação.
Referências e fontes
Kofler MJ, Soto EF, Singh LJ, et al. Executive function deficits in attention-deficit/hyperactivity disorder and autism spectrum disorder. Nature Reviews Psychology, 2024.
Consultar o artigo na Nature Reviews Psychology
National Institute of Mental Health. Informações sobre TDAH, sintomas e possibilidades de tratamento.
Consultar informações do NIMH sobre TDAH
National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management.
Consultar as recomendações do NICE




