Ressonância Magnética e TDAH: O Que os Exames Realmente Mostram Sobre o Cérebro

Quando pensamos em uma ressonância magnética do cérebro, é fácil imaginar que o exame consiga revelar exatamente o que está acontecendo dentro da mente.

Uma área diferente apareceria na imagem, o médico apontaria para ela e diria: “aqui está o TDAH”.

Na prática, não funciona assim.

Pesquisas com ressonância magnética realmente encontraram diferenças no cérebro de grupos de pessoas com TDAH quando comparados a grupos sem o transtorno. Algumas aparecem na estrutura cerebral, outras na atividade de determinadas redes e outras na forma como diferentes regiões se comunicam.

O problema é que essas diferenças são sutis, variam entre as pessoas e apresentam bastante sobreposição com aquilo que também encontramos em indivíduos sem TDAH.

Por isso, a neuroimagem é extremamente interessante para entender melhor o transtorno, mas ainda não funciona como um exame diagnóstico individual.

Afinal, o que uma ressonância consegue observar?

Nem todas as pesquisas de neuroimagem utilizam exatamente o mesmo tipo de exame.

A ressonância magnética estrutural produz imagens detalhadas da anatomia cerebral. Pesquisadores podem comparar volume de determinadas regiões, espessura do córtex e outras características físicas.

Já a ressonância magnética funcional, conhecida como fMRI, observa indiretamente mudanças relacionadas à atividade cerebral. Ela pode ser utilizada enquanto a pessoa realiza uma tarefa ou permanece em repouso.

Existe ainda a imagem por difusão, frequentemente utilizada para estudar a substância branca, que contém fibras responsáveis pela comunicação entre diferentes regiões do cérebro.

Juntas, essas técnicas ajudam pesquisadores a fazer perguntas diferentes.

O cérebro apresenta diferenças estruturais?

Determinadas redes funcionam de maneira diferente durante uma tarefa?

A comunicação entre regiões segue padrões diferentes?

Nenhuma dessas perguntas, porém, equivale a perguntar simplesmente: “essa pessoa tem TDAH?”.

O que aparece diferente no cérebro de pessoas com TDAH?

Quando pesquisadores reúnem resultados de muitos estudos, algumas regiões e redes aparecem repetidamente.

Áreas do córtex frontal, gânglios da base, cerebelo, regiões do cíngulo e circuitos envolvidos no controle cognitivo e no processamento de recompensas aparecem com frequência na literatura.

Uma grande meta-análise recente reuniu estudos estruturais e funcionais e encontrou diferenças médias em regiões como o córtex orbitofrontal, cíngulo anterior, putâmen e outras áreas relacionadas ao controle cognitivo. Os próprios pesquisadores, entretanto, ressaltam que diferentes estudos nem sempre chegam aos mesmos resultados.

Isso é importante porque evita uma interpretação comum:

“Quem tem TDAH possui uma parte do cérebro menor ou desligada.”

Não é assim.

Estamos falando de diferenças estatísticas encontradas quando grandes grupos são comparados, não de uma característica cerebral presente da mesma maneira em todas as pessoas com TDAH.

O córtex pré-frontal realmente explica a falta de foco?

O córtex pré-frontal participa de processos importantes como planejamento, controle de respostas, tomada de decisões e manutenção de objetivos.

Por isso, ele aparece frequentemente quando falamos de TDAH.

Mas seria simplista demais dizer que o transtorno acontece porque “o pré-frontal funciona menos”.

O cérebro trabalha por meio de redes.

Manter o foco durante uma tarefa pode envolver regiões responsáveis por detectar estímulos relevantes, sustentar objetivos, controlar respostas automáticas e alternar entre diferentes informações.

Essa complexidade ajuda a entender por que o TDAH está tão relacionado às chamadas funções executivas. Se quiser aprofundar esse aspecto, veja nosso conteúdo sobre TDAH e funções executivas.

A dificuldade não está necessariamente em uma única “área do foco”, mas na forma como diferentes sistemas trabalham em conjunto.

E a famosa rede em modo padrão?

Outro tema frequente nas pesquisas é a chamada Default Mode Network, ou rede em modo padrão.

Ela é formada por regiões que costumam apresentar determinada atividade quando não estamos concentrados em uma tarefa externa específica.

É o tipo de funcionamento associado a pensamentos internos, lembranças, imaginação e divagação mental.

Pesquisas com TDAH encontraram diferenças na conectividade dessa rede e na maneira como ela interage com redes envolvidas em atenção e controle cognitivo. Revisões recentes continuam apontando alterações nesses sistemas, embora os resultados não sejam idênticos entre todos os estudos. PubMed

Isso não significa que exista uma rede “ligada demais” invadindo o cérebro de quem tem TDAH.

A interpretação mais cuidadosa é que alguns padrões de interação entre redes cerebrais parecem diferir, em média, entre grupos.

E a dopamina? Ela aparece na ressonância?

Não diretamente em uma ressonância magnética convencional.

Dopamina é um neurotransmissor, e sua atividade não aparece como uma mancha colorida em um exame comum.

Pesquisas sobre sistemas dopaminérgicos utilizam outros métodos, além de estudos farmacológicos e técnicas específicas de imagem.

Isso é importante porque imagens coloridas de cérebro encontradas na internet podem criar a impressão de que pesquisadores literalmente conseguem “ver a falta de dopamina” em alguém com TDAH.

A realidade é bem mais complexa.

Se esse assunto interessa, aprofundamos a questão no artigo TDAH e dopamina: o que a ciência revela sobre o cérebro.

Uma ressonância consegue confirmar TDAH?

Atualmente, não.

O diagnóstico de TDAH continua sendo clínico.

Profissionais analisam histórico de desenvolvimento, sintomas, funcionamento em diferentes áreas da vida, duração das dificuldades e possíveis outras explicações.

O CDC deixa claro que não existe um único teste capaz de diagnosticar TDAH. CDC

Isso também significa que uma ressonância considerada “normal” não exclui TDAH.

A grande maioria das diferenças encontradas em pesquisas é pequena demais e variável demais para permitir que um radiologista observe a imagem de uma única pessoa e determine se ela possui o transtorno.

Para entender como essa avaliação realmente acontece na prática, temos um guia específico sobre como é feito o diagnóstico de TDAH em adultos.

Então por que os cientistas continuam estudando ressonâncias?

Porque diagnóstico não é a única finalidade da neuroimagem.

Esses estudos ajudam a compreender melhor como o transtorno se desenvolve, quais sistemas cerebrais estão associados a determinados processos cognitivos e por que existe tanta diversidade entre pessoas diagnosticadas.

Também existe uma área crescente de pesquisa utilizando inteligência artificial e aprendizado de máquina para analisar imagens cerebrais.

Uma meta-análise publicada em 2024 encontrou resultados promissores na classificação de TDAH por modelos baseados em ressonância estrutural e funcional. Entretanto, a sensibilidade e a especificidade combinadas ficaram em torno de 74% e 75%, respectivamente. Isso está longe da precisão necessária para substituir uma avaliação clínica individual. PubMed

Essas tecnologias podem evoluir bastante.

Mas existe uma diferença enorme entre um modelo experimental identificar padrões estatísticos em um banco de dados e um exame estar pronto para uso clínico cotidiano.

Pessoas com TDAH têm cérebros iguais entre si?

Não.

Essa talvez seja uma das informações mais importantes quando falamos de neuroimagem.

TDAH é um transtorno bastante heterogêneo.

Uma pessoa pode apresentar principalmente dificuldade de atenção e organização.

Outra pode ter impulsividade e inquietação muito mais evidentes.

Uma terceira pode enfrentar grandes problemas em determinadas situações e funcionar muito bem em outras.

Idade, sono, outros transtornos, uso de medicamentos, desenvolvimento, genética e muitos outros fatores também podem influenciar os resultados dos estudos.

Por isso, pesquisadores dificilmente encontram uma única assinatura cerebral presente em todas as pessoas com TDAH.

Essa diversidade também ajuda a explicar por que reduzir o transtorno a frases como “o cérebro com TDAH funciona assim” pode ser enganoso.

Para uma visão mais ampla sobre essas diferenças, vale continuar em O Cérebro com TDAH: Como a Neurociência Explica a Falta de Foco e Impulsividade.

Ressonância pode ser solicitada mesmo assim?

Sim, mas por outros motivos clínicos.

Um profissional pode solicitar exames quando existe necessidade de investigar outra condição neurológica ou quando sintomas apresentam características que justificam essa investigação.

Isso é diferente de solicitar uma ressonância para “procurar TDAH”.

Na avaliação rotineira do transtorno, diretrizes clínicas continuam priorizando histórico, sintomas, desenvolvimento e prejuízo funcional em diferentes ambientes. O NICE recomenda que o diagnóstico seja realizado por profissional qualificado a partir de uma avaliação clínica e psicossocial completa.

O que as imagens realmente nos ensinaram?

Talvez a grande contribuição da neuroimagem não seja oferecer uma fotografia que prove a existência do TDAH.

É mostrar que atenção, impulsividade, motivação e autorregulação não dependem de uma única região isolada.

Elas emergem da interação entre diversos sistemas.

As ressonâncias também ajudaram a abandonar explicações simplistas de que o TDAH seria apenas falta de disciplina, vontade ou interesse.

Há diferenças neurobiológicas mensuráveis associadas ao transtorno.

Ao mesmo tempo, essas diferenças não definem sozinhas uma pessoa e não produzem uma fronteira perfeita entre um “cérebro com TDAH” e um “cérebro sem TDAH”.

É justamente essa combinação que torna a neuroimagem tão importante para a pesquisa e, ao mesmo tempo, ainda limitada para o diagnóstico individual.

A ciência consegue observar padrões cada vez mais detalhados.

Mas, por enquanto, compreender o TDAH ainda exige algo que nenhuma imagem cerebral consegue mostrar completamente: como aquela pessoa funciona na vida real.

Referências principais

Chen C. et al. A multimodal neuroimaging meta-analysis of functional and structural brain abnormalities in attention-deficit/hyperactivity disorder. Publicado em 2025. Reuniu estudos estruturais e funcionais e encontrou diferenças médias em diferentes regiões cerebrais, destacando também inconsistências entre pesquisas. PubMed

Mizuno Y. et al. A brief review of MRI studies in patients with attention-deficit/hyperactivity disorder and future perspectives. 2025. Resume achados de ressonância estrutural, funcional, conectividade e substância branca no TDAH. PubMed

CDC. Diagnosing ADHD. Atualizado em julho de 2026. Reforça que não existe um único teste para diagnosticar TDAH e que o processo envolve várias etapas.

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