Você passa boa parte do dia ocupado e quase não percebe a fome.
Mais tarde, quando finalmente para, começa a comer rapidamente. Às vezes continua mesmo depois de perceber que já está satisfeito. Em outras ocasiões, abre um pacote de alguma coisa enquanto trabalha e só percebe quanto comeu quando ele termina.
Situações assim podem acontecer com qualquer pessoa.
Mas, quando existe TDAH e compulsão alimentar, a relação entre atenção, impulsividade, rotina, emoções e comportamento alimentar pode ficar mais complicada.
Isso não significa que pessoas com TDAH necessariamente desenvolvam transtornos alimentares. Também não significa que comer por impulso seja automaticamente uma compulsão.
Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 trouxe uma pista importante para entender essa relação. Em vez de encontrar uma explicação simples, os pesquisadores observaram que TDAH, sintomas de compulsão alimentar e índice de massa corporal podem compartilhar parte de uma mesma vulnerabilidade genética.
A descoberta muda uma interpretação bastante comum.
Talvez a história não seja simplesmente “o TDAH causa compulsão, que leva ao ganho de peso”.
Pode existir algo mais complexo acontecendo por trás dessas três características.
Comer por impulso é a mesma coisa que compulsão alimentar?
Não.
Essa diferença é essencial antes de continuar.
É possível comer sem fome porque algo parece gostoso, repetir uma sobremesa ou exagerar ocasionalmente em uma refeição sem ter um transtorno alimentar.
Na compulsão alimentar, um elemento central é a sensação de perda de controle.
A pessoa pode consumir uma quantidade muito grande de alimento em um período relativamente curto e sentir que não consegue parar ou controlar quanto está comendo.
Também podem aparecer comportamentos como comer rapidamente, continuar mesmo sem fome, comer até sentir desconforto, esconder o comportamento e sentir vergonha ou culpa depois.
Quando esses episódios acontecem de maneira recorrente e causam sofrimento significativo, pode existir um transtorno de compulsão alimentar, que precisa de avaliação profissional.
Por isso, neste artigo, “compulsão alimentar” não deve ser entendida simplesmente como gostar muito de comer ou sair da dieta.
O que TDAH tem a ver com isso?
O TDAH pode envolver dificuldades em áreas como controle de impulsos, planejamento e autorregulação.
Na alimentação, essas dificuldades podem aparecer de maneiras bem cotidianas.
A pessoa pode passar horas concentrada em alguma coisa e adiar a refeição até estar com muita fome.
Pode comprar comida impulsivamente.
Pode ter dificuldade para interromper uma atividade prazerosa.
Também pode usar a comida como resposta rápida para tédio, estresse ou emoções desagradáveis.
Isso não significa que essas situações sejam universais entre pessoas com TDAH.
O ponto é que alguns dos mecanismos envolvidos no controle do comportamento também participam das decisões alimentares.
A pesquisa recente sugere justamente que olhar apenas para um comportamento isolado pode ser insuficiente.
O que o novo estudo descobriu?
Pesquisadores do King’s College London, Cardiff University e Yale University utilizaram dados do Twins Early Development Study, um grande projeto britânico que acompanha pares de gêmeos ao longo do desenvolvimento.
A versão final do trabalho, publicada na revista Psychological Medicine, incluiu dados de 4.363 pares de gêmeos idênticos e 8.575 pares de gêmeos fraternos.
Os pesquisadores analisaram sintomas de TDAH em diferentes fases da vida, sintomas relacionados à compulsão alimentar aos 21 anos e índice de massa corporal posteriormente.
Quando fizeram uma análise inicial, sem controlar influências genéticas compartilhadas, os sintomas de compulsão alimentar pareciam ajudar a explicar parte da relação entre sintomas de TDAH e IMC na adolescência e na vida adulta.
Mas o resultado mudou quando fatores genéticos e ambientais foram incorporados ao modelo.
A relação indireta deixou de aparecer.
Os autores concluíram que a associação entre sintomas de TDAH, compulsão alimentar e IMC parecia ser explicada, em grande parte, por influências genéticas compartilhadas.
Isso quer dizer que a compulsão alimentar é genética?
Não dessa forma.
Ter uma predisposição genética não significa que determinado comportamento esteja programado para acontecer.
Genes podem contribuir para características relacionadas a impulsividade, regulação, apetite, comportamento alimentar e outros processos, enquanto ambiente, experiências, rotina, saúde mental e hábitos também participam da história.
O próprio estudo fala em uma vulnerabilidade compartilhada, e não em um gene responsável por compulsão alimentar em quem tem TDAH.
Além disso, os pesquisadores avaliaram sintomas alimentares por questionários. Eles não estavam diagnosticando transtorno de compulsão alimentar em todos os participantes.
Essa distinção é importante.
A pesquisa ajuda a compreender associações entre características, mas não permite olhar para uma pessoa e afirmar por que ela come de determinada maneira.
E o peso corporal?
Esse é outro ponto em que vale bastante cuidado.
O estudo também analisou IMC, mas seria errado transformar o resultado em:
“Pessoas com TDAH engordam por causa da compulsão alimentar.”
A própria pesquisa questiona justamente essa interpretação simplificada.
Quando as influências genéticas compartilhadas foram consideradas, o papel da compulsão como explicação direta da relação entre sintomas de TDAH e IMC ficou muito menos claro.
Além disso, peso corporal depende de muitos fatores.
Alimentação, genética, sono, medicamentos, nível de atividade física, condições metabólicas, saúde mental e contexto social podem participar.
Por isso, o foco mais útil não é assumir que determinado número na balança revela compulsão.
É observar o comportamento e a relação que a pessoa mantém com a comida.
Quando a rotina favorece decisões impulsivas
Imagine chegar às 18h percebendo que praticamente não comeu desde o café da manhã.
Nesse momento, tentar tomar decisões alimentares com calma pode ser bem mais difícil.
A fome é intensa.
A energia está baixa.
Existe pressa.
E o alimento que oferece uma recompensa imediata tende a parecer muito mais atraente.
Para algumas pessoas com TDAH, organizar refeições pode ser complicado justamente porque envolve lembrar horários, planejar compras, preparar alimentos e interromper outras atividades.
Não significa que exista uma dieta específica capaz de tratar o TDAH.
Mas criar uma estrutura mínima para alimentação pode reduzir situações em que todas as decisões são tomadas apenas quando a fome já está muito forte.
Se você quiser aprofundar a parte nutricional, veja também Os Melhores e Piores Alimentos para Quem Tem TDAH, que aborda alimentação de uma perspectiva diferente desta. Ler o artigo sobre alimentação e TDAH
A culpa pode piorar a relação com a comida
Depois de comer mais do que gostaria, é comum surgir uma reação dura:
“Não tenho controle.”
“Estraguei tudo.”
“Amanhã não vou comer quase nada.”
O problema é que restrições muito rígidas podem alimentar outro ciclo difícil.
O National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases destaca que estratégias alimentares pouco saudáveis, como pular refeições ou comer pouco demais, podem contribuir para episódios de compulsão em algumas pessoas.
Isso é especialmente importante em um artigo sobre TDAH.
A solução não deveria ser transformar cada refeição em mais uma fonte de regras impossíveis de cumprir.
Quando existe sofrimento, perda de controle recorrente ou vergonha relacionada à comida, o caminho adequado é buscar ajuda, não aumentar a punição.
O que observar na própria rotina
Em vez de começar contando calorias ou classificando alimentos como “permitidos” e “proibidos”, pode ser mais útil observar contextos.
Por exemplo:
Você costuma passar muitas horas sem comer?
Os episódios aparecem principalmente à noite?
Acontecem depois de dias muito estressantes?
Você come enquanto está completamente envolvido em telas ou trabalho?
Existe sensação de perda de controle?
Depois desses episódios vem culpa ou necessidade de esconder o comportamento?
Essas perguntas não servem para autodiagnóstico.
Elas ajudam apenas a perceber padrões.
Se ansiedade costuma aparecer junto das dificuldades alimentares, nosso artigo TDAH e Ansiedade: O Que a Neurociência Diz Sobre Essa Relação? também pode ajudar a compreender como diferentes dificuldades podem coexistir. Ler TDAH e Ansiedade
Quando vale procurar ajuda profissional?
Comer por impulso ocasionalmente não significa ter um transtorno alimentar.
Mas alguns sinais merecem atenção.
Procure orientação profissional quando existe perda de controle recorrente, episódios de ingestão de grandes quantidades de comida, necessidade de comer escondido, sofrimento intenso, vergonha ou culpa frequente.
Transtornos alimentares são condições de saúde reais e tratáveis. Eles podem acontecer em pessoas de diferentes pesos, idades e gêneros.
Um profissional de saúde mental com experiência em transtornos alimentares pode avaliar o comportamento de forma mais ampla. Dependendo da situação, acompanhamento médico e nutricional também pode fazer parte do cuidado.
E existe uma diferença enorme entre receber orientação profissional para uma relação difícil com a comida e simplesmente começar uma dieta restritiva por conta própria.
Talvez o problema não seja simplesmente “falta de controle”
Essa pesquisa recente ajuda a desmontar uma explicação muito confortável, mas também muito limitada.
Pessoas com TDAH que apresentam dificuldades alimentares não estão necessariamente escolhendo ser impulsivas.
E episódios de compulsão não podem ser reduzidos a falta de disciplina.
TDAH, comportamento alimentar e peso parecem compartilhar mecanismos complexos, incluindo fatores genéticos e processos relacionados à autorregulação.
Isso não elimina a possibilidade de mudança.
Mas muda a pergunta.
Em vez de:
“Por que eu simplesmente não consigo me controlar?”
pode ser mais útil perguntar:
“O que costuma acontecer antes de eu perder o controle e que tipo de apoio pode me ajudar nesse momento?”
Essa mudança tira o foco da culpa e coloca atenção no comportamento, no contexto e nas estratégias que realmente podem ser trabalhadas.
E talvez esse seja um ponto de partida muito mais saudável.
Referências e fontes
You Y, McAdams TA, Oginni O, Liu C, Herle M, Zavos HMS. Exploring the role of binge eating symptoms in the association between ADHD and BMI: a twin study. Psychological Medicine. Publicado online em 30 de setembro de 2026. DOI: 10.1017/S0033291726105935.
Acessar o estudo original na Cambridge University Press
National Institute of Mental Health. Eating Disorders: What You Need to Know.
Consultar informações do NIMH sobre transtornos alimentares
National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Symptoms & Causes of Binge Eating Disorder.




