Exercício Físico e TDAH: Qual Intensidade Pode Ajudar Mais no Foco?

Exercício físico e TDAH têm uma relação cada vez mais estudada pela ciência. Quem convive com o transtorno provavelmente já ouviu que a atividade física pode ajudar no foco, na inquietação e até na produtividade.

Um estudo publicado em julho de 2026 no Western Journal of Nursing Research trouxe novas pistas sobre essa questão. Pesquisadores da Kent State University, nos Estados Unidos, compararam exercícios de baixa, moderada e alta intensidade em universitários com sintomas de TDAH. Os resultados sugerem que não é necessariamente o treino mais pesado que apresenta os benefícios mais consistentes.

A pesquisa ainda é pequena e deve ser interpretada com cautela, mas acrescenta informações interessantes para adultos que procuram maneiras práticas de complementar o cuidado com o TDAH.

O que o novo estudo sobre exercício e TDAH investigou?

A pesquisa, conduzida por Meghan E. Edmondson e Angela L. Ridgel, reuniu 33 participantes universitários com sintomas de TDAH.

Eles foram distribuídos aleatoriamente em três grupos:

  • exercício de baixa intensidade;
  • exercício de intensidade moderada;
  • exercício de alta intensidade.

Todos utilizaram bicicleta ergométrica durante 20 minutos, e a intervenção ocorreu ao longo de uma semana. No grupo de alta intensidade, o exercício incluía períodos de 20 segundos de esforço máximo alternados com 120 segundos de pedalada leve.

Antes e depois da intervenção, os pesquisadores avaliaram tanto a intensidade dos sintomas quanto o impacto desses sintomas no funcionamento cotidiano.

Essa comparação é interessante porque boa parte das pesquisas anteriores sobre exercício e TDAH concentrou-se em crianças, adolescentes ou nos efeitos gerais da atividade física. Ainda existem relativamente poucos estudos voltados especificamente para adultos.

O exercício realmente melhorou os sintomas?

De maneira geral, sim.

Os pesquisadores observaram uma redução na gravidade dos sintomas de TDAH e no prejuízo funcional depois da intervenção.

No entanto, existe um detalhe importante: quando os três grupos foram comparados diretamente, não houve diferença estatisticamente significativa entre as intensidades. Isso significa que o estudo não permite afirmar que uma intensidade seja definitivamente superior às demais.

Quando os pesquisadores analisaram sintomas específicos dentro de cada grupo, porém, apareceram algumas diferenças interessantes.

Desatenção

Os sintomas de desatenção apresentaram melhora significativa nos grupos de exercício de baixa e moderada intensidade.

Isso chama atenção porque muitas pessoas associam benefício cognitivo apenas a exercícios intensos. Pelo menos nessa pequena amostra, não foi necessário chegar ao esforço máximo para observar mudanças relacionadas à atenção.

Impulsividade

Também houve melhora significativa da impulsividade nos grupos de baixa e moderada intensidade.

Para quem convive com TDAH, impulsividade pode aparecer em situações muito diferentes: responder antes de pensar, interromper conversas, abandonar tarefas, tomar decisões rápidas ou ter dificuldade para esperar.

O estudo não demonstra que exercício resolva esses comportamentos, mas reforça a possibilidade de que a atividade física seja uma ferramenta complementar interessante.

Hiperatividade

Já os sintomas de hiperatividade apresentaram redução significativa especificamente no grupo de intensidade moderada.

Por isso, considerando os diferentes sintomas avaliados, os autores concluíram que o exercício moderado parece ter apresentado o padrão mais consistente de benefícios nessa pesquisa.

Então exercício moderado é o melhor para TDAH?

Ainda não podemos afirmar isso.

Esse é provavelmente o ponto mais importante do estudo.

A pesquisa envolveu somente 33 participantes e teve duração de apenas uma semana. Além disso, embora tenham aparecido melhorias dentro dos grupos, não houve diferença estatisticamente significativa quando as três intensidades foram comparadas diretamente.

Portanto, seria exagerado concluir que existe uma “intensidade perfeita” de exercício para TDAH.

O que os resultados sugerem é algo mais simples e talvez até mais útil: não é obrigatório fazer um treino extremamente intenso para que a atividade física possa trazer benefícios.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 também avaliou pesquisas sobre exercício em adultos com TDAH. Os autores encontraram evidências preliminares de benefícios de sessões isoladas de exercício sobre controle inibitório e sintomas centrais, mas ressaltaram que ainda existem poucos estudos de longo prazo em adultos.

Ou seja, o cenário científico é promissor, mas ainda está em construção.

O que seria um exercício de intensidade moderada?

De maneira prática, intensidade moderada costuma representar uma atividade que eleva a respiração e os batimentos cardíacos, mas ainda permite manter algum nível de conversa.

Dependendo da pessoa e do condicionamento físico, isso pode incluir atividades como:

  • caminhada mais acelerada;
  • bicicleta;
  • natação em ritmo confortável;
  • dança;
  • corrida leve;
  • circuito de exercícios;
  • algumas sessões de musculação.

O objetivo não é copiar exatamente o protocolo do estudo. Os participantes utilizaram bicicleta ergométrica em condições controladas, portanto os resultados não podem simplesmente ser transferidos para qualquer modalidade.

A mensagem mais útil é perceber que movimento acessível e sustentável também pode ser relevante.

Como usar o exercício para ajudar no foco durante o dia?

Uma maneira prática de aplicar esse conhecimento é observar em quais momentos do dia sua atenção costuma diminuir.

Por exemplo, algumas pessoas podem testar uma caminhada antes de iniciar um período de trabalho ou estudo. Outras podem preferir treinar pela manhã ou fazer uma atividade física no intervalo entre tarefas mentalmente exigentes.

Não precisa existir uma regra universal.

Você pode observar três pontos:

1. Como está seu foco antes do exercício?

Faça uma avaliação simples: sua mente está acelerada, cansada, dispersa ou procrastinando?

2. Como você se sente depois?

Observe se iniciar uma tarefa ficou mais fácil, se existe menos inquietação ou se sua capacidade de permanecer na atividade mudou.

3. A estratégia é sustentável?

Um treino teoricamente perfeito não ajuda muito se você consegue realizá-lo apenas uma vez.

Para quem tem TDAH, diminuir a barreira para começar pode ser mais importante do que criar uma rotina extremamente complexa.

Se esse assunto interessa a você, vale também conferir Como Usar a Dopamina Natural do Exercício para Melhorar a Produtividade, que aprofunda a relação entre atividade física, motivação e desempenho no cotidiano.

Exercício substitui medicamentos ou terapia para TDAH?

Não.

Os resultados desse estudo devem ser entendidos como evidência sobre uma possível estratégia complementar, e não como demonstração de que atividade física substitui tratamentos estabelecidos.

Inclusive, os próprios pesquisadores destacam que ainda são necessários estudos maiores para compreender melhor qual intensidade, frequência, duração e tipo de exercício poderiam produzir os melhores resultados em adultos com TDAH.

Tratamentos para TDAH podem envolver diferentes estratégias e precisam considerar sintomas, rotina, outras condições de saúde e necessidades individuais.

Além disso, pessoas sedentárias ou com problemas cardiovasculares, ortopédicos ou outras limitações devem procurar orientação profissional antes de iniciar exercícios mais intensos.

Talvez você não precise treinar no limite para colher benefícios

Para muitas pessoas com TDAH, criar uma rotina de exercícios já é um desafio. Falta de motivação, dificuldade em manter hábitos, tédio e procrastinação podem transformar um plano simples em mais uma obrigação abandonada depois de alguns dias.

Por isso, uma das mensagens mais interessantes dessa nova pesquisa é justamente que mais intensidade não significou automaticamente melhores resultados.

Os exercícios de baixa e moderada intensidade apresentaram resultados interessantes para desatenção e impulsividade, enquanto o exercício moderado também mostrou melhora nos sintomas de hiperatividade.

Ainda precisamos de pesquisas maiores e mais longas para saber até onde esses efeitos vão.

Mas a evidência atual reforça uma ideia importante: o exercício físico não precisa ser extremo para fazer parte de uma estratégia de qualidade de vida para adultos com TDAH.

Começar com algo possível, observar como seu cérebro responde e construir consistência pode ser muito mais útil do que perseguir o treino perfeito.


Referência científica principal

Edmondson, M. E.; Ridgel, A. L. Effects of Low, Moderate, and High Intensity Exercise on Functional Impairment and ADHD Symptoms: A Randomized Pilot Study. Western Journal of Nursing Research, publicado online em 12 de julho de 2026. DOI: 10.1177/01939459261458869.

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