Você acorda depois de uma noite aparentemente normal, mas poucas horas depois já sente vontade de voltar para a cama.
Durante uma reunião, uma aula ou uma tarefa repetitiva, os olhos começam a pesar. A cabeça parece mais lenta, o foco desaparece e surge aquela sensação de que seria muito mais fácil simplesmente dormir.
Para algumas pessoas com TDAH, isso acontece com frequência.
É fácil pensar que a explicação seja apenas uma noite mal dormida. Só que a relação entre TDAH e sono excessivo pode ser mais complicada.
Problemas no horário de dormir, alterações no ritmo biológico, insônia, outras condições do sono e até a maneira como percebemos cansaço e sonolência podem fazer parte dessa história.
Então, antes de concluir simplesmente que “quem tem TDAH precisa dormir mais”, precisamos entender o que essa sensação realmente significa.
Sono, cansaço e falta de foco não são exatamente a mesma coisa
No cotidiano, usamos expressões como:
“Estou morto de sono.”
“Minha cabeça não funciona.”
“Estou sem energia.”
“Não consigo me concentrar.”
Só que essas experiências podem representar coisas diferentes.
Sonolência é a tendência real de adormecer.
Fadiga está mais ligada à sensação de exaustão ou falta de energia.
Já a desatenção pode fazer a pessoa sentir que o cérebro está desligando de uma atividade, mesmo sem existir uma necessidade fisiológica tão forte de dormir.
No TDAH, essas sensações podem se misturar.
Isso pode acontecer principalmente em tarefas monótonas ou pouco estimulantes. A pessoa sente a atenção cair, começa a bocejar, perde o ritmo e interpreta aquilo como sono.
Em outros momentos, existe realmente uma privação ou alteração importante do sono.
E saber diferenciar essas situações importa bastante.
O que um estudo recente encontrou?
Pesquisadores japoneses analisaram dados de 130 adultos encaminhados para avaliação de sonolência durante o dia.
Entre eles, 68 faziam parte do grupo com TDAH e 62 apresentavam sonolência excessiva sem TDAH.
Todos passaram por avaliações subjetivas e por um exame chamado Teste de Latências Múltiplas do Sono, conhecido pela sigla MSLT. Esse teste mede, de forma controlada, quanto tempo uma pessoa leva para adormecer durante diferentes oportunidades de cochilo ao longo do dia. Frontiers
O resultado foi curioso.
Os dois grupos relataram níveis semelhantes de sonolência.
Mas, nos testes objetivos, o grupo com TDAH demorou mais para adormecer e apresentou menor frequência de resultados compatíveis com sonolência fisiológica excessiva.
Isso não significa que o sono relatado pelas pessoas com TDAH seja imaginário.
Significa que, em algumas delas, a sensação descrita como “sono” pode envolver uma combinação de fatores como dificuldade de manter a atenção, fadiga, oscilação do nível de alerta ou problemas de sono que precisam ser investigados separadamente.
O relógio biológico também pode entrar nessa história
Existe outro ponto importante: muitas pessoas com TDAH apresentam tendência a dormir e acordar mais tarde.
Não é simplesmente uma preferência por ficar acordado vendo séries ou usando o celular.
Pesquisas vêm observando associação entre TDAH e atrasos no ritmo circadiano, o relógio interno que ajuda a determinar quando sentimos sono e quando ficamos despertos.
Em adultos com TDAH, estudos encontraram maior tendência ao cronotipo noturno, horários de despertar mais tardios e atraso em marcadores biológicos relacionados ao início do sono.
Imagine alguém cujo organismo naturalmente demora mais para entrar no “modo noite”, mas que precisa acordar às 6h30 todos os dias por causa do trabalho.
Ela pode conseguir funcionar assim durante a semana, porém começar a acumular falta de sono.
O resultado aparece pela manhã e durante o dia.
Acordar vira uma batalha.
O cérebro demora para engrenar.
E qualquer atividade pouco estimulante parece aumentar ainda mais a vontade de dormir.
Dormir bastante não significa necessariamente dormir bem
Também existe uma diferença entre quantidade e qualidade do sono.
Uma pessoa pode permanecer oito horas na cama e ainda assim ter um sono fragmentado ou pouco restaurador.
Em uma grande amostra de 3.691 adultos com TDAH atendidos em uma clínica especializada, cerca de 60% apresentaram rastreamento positivo para algum problema relacionado ao sono. Entre os mais frequentes estavam atraso da fase do sono, insônia e sintomas relacionados à síndrome das pernas inquietas ou movimentos periódicos dos membros. PubMed
Isso não significa que 60% das pessoas com TDAH possuam necessariamente um transtorno do sono diagnosticado. O estudo utilizou instrumentos de rastreamento.
Mas mostra por que não é uma boa ideia atribuir automaticamente qualquer sonolência ao próprio TDAH.
O ciclo que pode piorar tudo
Existe uma armadilha fácil de reconhecer.
Você está cansado durante o dia.
Toma café para conseguir produzir.
No final da tarde, sente outra queda de energia e toma mais café.
À noite, finalmente parece despertar e aproveita aquele momento para resolver coisas que não conseguiu terminar durante o dia.
Vai dormir tarde.
No dia seguinte, acorda cansado novamente.
E começa tudo outra vez.
Para quem tem dificuldade com organização e percepção do tempo, manter horários consistentes de sono também pode ser mais complicado.
Se você costuma usar café para combater o cansaço, vale complementar esta leitura com O Impacto da Cafeína em Pessoas com TDAH: Ajuda ou Atrapalha?.
Cafeína pode aumentar temporariamente o estado de alerta, mas utilizá-la cada vez mais tarde também pode alimentar o problema que você está tentando resolver.
“Eu durmo e ainda acordo cansado.” Quando prestar mais atenção?
Uma noite ruim é normal.
Alguns dias de cansaço depois de uma semana intensa também não significam necessariamente que exista algum problema.
Mas vale observar melhor quando a sonolência se torna frequente.
Por exemplo, quando você:
- adormece involuntariamente durante o dia;
- luta constantemente para permanecer acordado;
- ronca intensamente ou alguém percebe pausas na sua respiração;
- acorda cansado praticamente todos os dias;
- dorme muitas horas e ainda sente necessidade de cochilar;
- percebe que a sonolência começou recentemente ou piorou muito;
- sente sono em situações perigosas, como dirigindo.
Nesses casos, uma avaliação profissional pode ajudar a investigar outras explicações.
Apneia do sono, distúrbios do ritmo circadiano, síndrome das pernas inquietas, narcolepsia, hipersonia, efeitos de medicamentos, ansiedade, depressão e outras condições podem interferir no sono ou no nível de alerta.
Será que organizar melhor os horários ajuda?
Para algumas pessoas, sim.
Principalmente quando existe um padrão de dormir cada vez mais tarde e precisar acordar cedo.
Um primeiro passo útil pode ser observar a própria rotina por alguns dias.
Anote:
que horas você vai para a cama;
quanto tempo demora para dormir;
que horas acorda;
se desperta durante a noite;
como se sente pela manhã;
em quais horários sente mais sono durante o dia.
Esse pequeno registro pode revelar padrões difíceis de perceber enquanto os dias acontecem.
Também pode ser útil manter um horário de despertar relativamente constante, inclusive nos dias em que não existe obrigação logo cedo.
Se sua maior dificuldade acontece justamente na hora de começar o dia, veja também Como Criar uma Rotina Matinal Eficaz para Adultos com TDAH.
O objetivo não é criar uma rotina perfeita. É reduzir a quantidade de decisões necessárias quando o cérebro ainda está tentando despertar.
E o exercício?
Atividade física regular pode contribuir para saúde geral, disposição e sono, mas o horário que funciona melhor varia entre as pessoas.
Quem percebe que exercícios intensos muito tarde deixam o corpo acelerado pode experimentar horários diferentes.
Já outras pessoas treinam à noite e dormem normalmente.
No TDAH Mente Aberta, temos um conteúdo específico sobre TDAH e Exercício: Existe um Melhor Horário para Treinar?, que ajuda a pensar nessa relação sem transformar horário de exercício em uma regra rígida.
Talvez o seu “sono” não tenha uma única causa
Essa é provavelmente a mensagem mais importante.
Quando alguém com TDAH diz:
“Eu sinto sono o tempo inteiro.”
pode estar descrevendo várias experiências diferentes.
Pode existir privação de sono.
Pode haver atraso no relógio biológico.
Pode existir um transtorno do sono ainda não identificado.
Pode ser fadiga.
E, em alguns momentos, a própria dificuldade em manter o cérebro engajado pode ser percebida como sonolência.
O estudo publicado em 2026 reforça justamente essa complexidade: em adultos com TDAH encaminhados para avaliação de sono, a intensidade da sonolência relatada nem sempre acompanhou a tendência objetiva de adormecer. Frontiers
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:
“Por que pessoas com TDAH sentem tanto sono?”
Uma pergunta ainda melhor seria:
“O que estou chamando de sono e o que pode estar causando essa sensação?”
Entender essa diferença pode ser o primeiro passo para deixar de lutar contra o cansaço no escuro e começar a procurar a causa certa.
Referências e fontes
Uchida S, Maruo T, Takagi S, Sugihara G, Takahashi H. Subjective sleepiness and objective sleep propensity in adults with attention-deficit/hyperactivity disorder referred for multiple sleep latency testing. Frontiers in Psychiatry, 2026.
Acessar o estudo original
van der Ham M et al. Sleep Problems in Adults With ADHD: Prevalences and Their Relationship With Psychiatric Comorbidity. Journal of Attention Disorders, 2024.
Consultar o estudo no PubMed
Luu B, Fabiano N. ADHD as a circadian rhythm disorder: evidence and implications for chronotherapy. Frontiers in Psychiatry, 2025.
Acessar a publicação original




