Jogos que prometem exercitar memória, atenção e raciocínio parecem combinar perfeitamente com uma dificuldade bastante conhecida no TDAH.
Se o problema envolve distração, esquecimento ou dificuldade para manter informações em mente, por que não “treinar o cérebro” da mesma maneira que treinamos um músculo?
É justamente essa ideia que tornou aplicativos como o Lumosity populares.
Os jogos são rápidos, apresentam desafios progressivos e fornecem pontuações que permitem acompanhar o próprio desempenho. Para quem gosta de metas, níveis e feedback imediato, a experiência pode ser bastante envolvente.
A questão mais importante, porém, não é se conseguimos melhorar nossa pontuação dentro do aplicativo.
É saber se esse treinamento realmente se transforma em algo útil fora dele.
Será que jogar melhor significa lembrar melhor dos compromissos, conseguir trabalhar com menos distrações ou controlar melhor a impulsividade?
É aí que a resposta científica fica muito mais interessante.
O que exatamente o Lumosity treina?
Lumosity faz parte de uma categoria normalmente chamada de treinamento cognitivo computadorizado.
Em vez de ensinar estratégias diretamente para situações do cotidiano, esses programas apresentam tarefas criadas para exercitar habilidades como atenção, velocidade de processamento, memória e flexibilidade cognitiva.
Imagine um jogo em que você precisa lembrar rapidamente uma sequência.
Depois de repetir a atividade várias vezes, provavelmente começará a realizá-la melhor.
Isso mostra que houve aprendizado.
Mas ainda precisamos responder outra pergunta:
essa melhora passa para atividades diferentes daquela que foi treinada?
Esse fenômeno é conhecido nas pesquisas como transferência.
E ele é uma das maiores discussões quando falamos em treinamento cerebral.
Melhorar no jogo não significa automaticamente melhorar na vida real
Esse é provavelmente o ponto que mais precisa ficar claro.
Se você pratica determinada tarefa repetidamente, é esperado que fique melhor nela.
O desafio é demonstrar que essa habilidade aprendida também melhora tarefas suficientemente diferentes.
Uma pessoa pode aumentar bastante sua pontuação em um jogo de memória e continuar esquecendo onde colocou as chaves.
Pode responder estímulos visuais cada vez mais rápido no aplicativo e continuar encontrando dificuldade para terminar um relatório.
Isso acontece porque situações reais exigem várias habilidades ao mesmo tempo.
Responder aquele e-mail que está sendo adiado, por exemplo, envolve iniciar a tarefa, ignorar outras distrações, manter a intenção em mente e talvez controlar a vontade de fazer algo mais interessante.
Esses processos se relacionam com as funções executivas no TDAH, que são muito mais amplas do que o desempenho em uma tarefa cognitiva isolada.
Então treinamento cerebral não funciona?
Também seria exagero chegar a essa conclusão.
A pesquisa não mostra simplesmente “funciona” ou “não funciona”.
Uma revisão e meta-análise publicada em Neuropsychology analisou estudos randomizados de treinamento cognitivo computadorizado em adultos com TDAH.
Os pesquisadores encontraram uma melhora pequena na cognição geral entre participantes que realizaram esse tipo de treinamento.
Por outro lado, quando observaram resultados específicos, não encontraram melhora estatisticamente significativa na intensidade dos sintomas de TDAH, funções executivas, velocidade cognitiva ou memória de trabalho.
Ou seja, existe algum sinal de benefício cognitivo, mas ele é bem mais modesto do que frases como “treine sua atenção e melhore o TDAH” poderiam sugerir. PubMed
E existe outro detalhe importante:
essas pesquisas estudam treinamento cognitivo computadorizado como categoria.
Isso não significa que os mesmos resultados possam ser automaticamente atribuídos especificamente ao Lumosity.
Lumosity pode tratar TDAH?
Até o momento, não existe base para apresentar o Lumosity como tratamento para TDAH.
Isso não torna o aplicativo necessariamente inútil.
A pessoa pode gostar dos jogos, utilizar a atividade como desafio mental e perceber que consegue permanecer concentrada durante aquele período.
O problema começa quando essa experiência é interpretada como evidência de tratamento.
As abordagens estudadas para o TDAH adulto incluem medicamentos, intervenções psicológicas e outras estratégias estruturadas. Uma grande revisão publicada em 2025 comparou diferentes tratamentos e encontrou evidências mais consistentes para estimulantes e atomoxetina na redução dos sintomas centrais no curto prazo. Estratégias não farmacológicas apresentaram resultados mais variáveis conforme a forma de avaliação. PubMed
Aplicativos de treinamento cerebral não devem substituir acompanhamento profissional quando ele é necessário.
E quanto à memória?
Memória é uma palavra bastante ampla.
Algumas pessoas com TDAH dizem:
“Minha memória é péssima.”
Mas muitas vezes o problema não significa que o cérebro seja incapaz de armazenar informações.
Pode acontecer de a informação nem chegar a ser registrada adequadamente porque a atenção estava dividida.
Em outras situações, a dificuldade está em manter algo temporariamente disponível enquanto realizamos outra tarefa.
Essa segunda habilidade é chamada de memória de trabalho.
É o que usamos quando precisamos lembrar uma informação por alguns segundos enquanto fazemos alguma coisa com ela.
Jogos podem exercitar tarefas semelhantes.
Mas novamente aparece a questão da transferência: melhorar uma tarefa treinada não garante automaticamente que todos os esquecimentos cotidianos diminuirão.
Se esse é um problema frequente no seu dia a dia, vale entender primeiro a relação entre TDAH, atenção e esquecimento.
Por que esses jogos podem ser tão atraentes para quem tem TDAH?
Existe um aspecto em que aplicativos desse tipo podem combinar bastante com algumas pessoas com TDAH: a experiência de uso.
A tarefa começa imediatamente.
Existe uma meta clara.
O resultado aparece rápido.
Você sabe se acertou ou errou.
Depois surge outro desafio.
Compare isso com:
“organize os documentos deste mês”.
Não existe um começo tão evidente.
Não há pontuação.
O resultado demora.
E várias decisões precisam ser tomadas antes mesmo de começar.
Isso ajuda a explicar por que alguém pode permanecer bastante envolvido em um jogo cognitivo e, alguns minutos depois, encontrar enorme dificuldade para executar uma tarefa administrativa.
Não significa necessariamente que o jogo esteja corrigindo o TDAH.
Pode significar apenas que ele oferece um ambiente muito mais estimulante e estruturado.
Vale a pena usar Lumosity?
Depende do objetivo.
Se você gosta dos jogos, considera a atividade divertida e entende que está realizando um treino cognitivo, não um tratamento comprovado para TDAH, não há necessidade de transformar a experiência em algo maior do que ela é.
Talvez você perceba melhora em determinadas tarefas.
Talvez simplesmente goste de acompanhar sua evolução dentro do aplicativo.
O cuidado principal é não interpretar uma pontuação crescente como prova de que atenção, memória ou impulsividade estão necessariamente melhorando na mesma proporção no cotidiano.
E também não é necessário pagar por uma plataforma de treinamento cerebral acreditando que ela seja indispensável para manter o cérebro saudável.
Como descobrir se o aplicativo está realmente ajudando você?
Uma forma interessante de avaliar o uso é deixar de olhar apenas para a pontuação do próprio aplicativo.
Escolha alguma dificuldade real que você gostaria de melhorar.
Por exemplo:
“consigo permanecer mais tempo em uma leitura sem mudar de atividade?”
“estou esquecendo menos etapas quando faço determinada tarefa?”
“estou conseguindo retornar mais facilmente depois de uma interrupção?”
Depois de algumas semanas, observe se houve alguma mudança perceptível fora do jogo.
Isso não substitui uma avaliação científica, mas evita um erro comum: considerar que melhorar dentro do aplicativo significa automaticamente melhorar em todas as situações.
Também vale comparar o tempo utilizado com outras estratégias.
Se você dispõe de vinte minutos, talvez em alguns dias queira jogar.
Em outros, uma caminhada pode fazer mais sentido.
Há evidências interessantes sobre atividade física e TDAH, e o benefício adicional é que o exercício também contribui para a saúde física.
O jogo pode complementar uma rotina, não comandá-la
Aplicativos funcionam melhor quando ocupam um lugar proporcional ao benefício que realmente oferecem.
Usar um jogo cognitivo por alguns minutos pode ser agradável.
Mas uma rotina para lidar melhor com o TDAH normalmente envolve questões muito mais concretas:
organização do ambiente, sono, atividade física, estratégias para começar tarefas, planejamento, acompanhamento profissional quando necessário e sistemas que diminuam a dependência da memória.
Nenhum jogo consegue resolver sozinho todas essas áreas.
Isso também significa que você não precisa manter uma sequência perfeita de treinos ou se sentir culpado porque deixou de utilizar o aplicativo durante alguns dias.
O objetivo não é conseguir mais uma obrigação diária.
Treinar uma habilidade é diferente de tratar um transtorno
Talvez essa seja a melhor maneira de interpretar aplicativos como Lumosity.
Eles podem oferecer tarefas que exercitam determinadas capacidades cognitivas.
Isso é diferente de demonstrar que o aplicativo trata sintomas do TDAH ou melhora de maneira relevante o funcionamento cotidiano.
A ciência sobre treinamento cognitivo computadorizado em adultos com TDAH mostra resultados modestos e ainda deixa perguntas importantes em aberto.
Isso não elimina o valor da experiência para quem gosta dela.
Apenas coloca a ferramenta em seu devido lugar.
Se Lumosity torna alguns minutos do seu dia divertidos e mentalmente desafiadores, ótimo.
Só não precisamos transformar um jogo interessante em uma promessa que a pesquisa ainda não consegue sustentar.
Referências principais
Elbe P. et al. Computerized cognitive interventions for adults with ADHD: A systematic review and meta-analysis. Neuropsychology, 2023. A análise encontrou um pequeno efeito positivo na cognição geral, sem melhora significativa em sintomas de TDAH, funções executivas, velocidade cognitiva ou memória de trabalho.
Ostinelli EG et al. Comparative efficacy and acceptability of pharmacological, psychological, and neurostimulatory interventions for ADHD in adults. The Lancet Psychiatry, 2025. Revisão ampla de intervenções para TDAH adulto, útil para colocar treinamento cognitivo dentro do contexto dos tratamentos disponíveis.




