TDAH e Bullying na Escola: Como Reconhecer os Sinais e Apoiar Seu Filho

Uma criança que gostava de ir à escola começa a inventar motivos para ficar em casa.

Em outros casos, a mudança é mais discreta. Ela fica irritada quando alguém pergunta sobre os colegas, chega com materiais danificados, passa mais tempo sozinha ou começa a dizer que ninguém gosta dela.

Nenhum desses comportamentos confirma que existe bullying.

Mas mudanças persistentes merecem atenção.

Para crianças e adolescentes com TDAH, esse assunto é especialmente importante. Pesquisas indicam maior envolvimento em situações de bullying quando comparados a colegas sem TDAH, principalmente como vítimas, embora algumas crianças também possam aparecer em situações de agressão contra outros alunos. Uma revisão publicada em 2026 encontrou justamente esse padrão e mostrou que fatores como impulsividade, regulação emocional, dificuldades sociais, outras condições associadas e características do ambiente escolar podem influenciar essa relação. O estudo pode ser consultado no PubMed.

Isso não significa que o TDAH transforme automaticamente uma criança em alvo.

Também não significa que qualquer conflito entre colegas seja bullying.

Entender essa diferença é o primeiro passo para agir de forma adequada.

Nem toda briga entre crianças é bullying

Discussões, desentendimentos e conflitos fazem parte das relações sociais.

Uma criança pode discutir com um colega hoje e brincar normalmente com ele amanhã.

Bullying envolve outra dinâmica.

No Brasil, a Lei nº 13.185 define a intimidação sistemática como atos intencionais e repetitivos de violência física ou psicológica praticados contra uma pessoa em uma relação de desequilíbrio de poder. Isso pode envolver insultos, ameaças, exclusão, agressões, humilhações e também ações realizadas no ambiente digital. A definição completa está disponível no texto da Lei nº 13.185.

Portanto, repetição, intenção de intimidar ou humilhar e dificuldade da vítima para se defender são elementos importantes.

Essa diferença ajuda pais e escola a não banalizarem o termo, mas também evita que situações realmente graves sejam tratadas como uma simples “brincadeira entre crianças”.

Existe maior risco para crianças com TDAH?

As evidências indicam que sim, embora a explicação não seja simples.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no The Lancet Child & Adolescent Health analisou bullying em crianças e adolescentes com diferentes condições do neurodesenvolvimento e psiquiátricas. Os resultados apontaram maior vulnerabilidade desses grupos a experiências de bullying escolar. O estudo está disponível no PubMed.

O CDC também destaca que crianças com TDAH podem apresentar maior risco de problemas emocionais e comportamentais associados, e algumas dessas condições podem aumentar a vulnerabilidade ao bullying.

Mas é importante não transformar isso em uma explicação simplista.

Não existe algo no TDAH que faça uma criança “provocar” o bullying.

O problema está no comportamento de quem intimida e também no ambiente que permite que isso continue.

O que pode acontecer é que determinadas características tornem a criança mais visível ou dificultem algumas relações sociais.

Impulsividade, dificuldade para esperar a vez, falar em momentos inadequados, interpretar mal uma situação social ou reagir de maneira intensa podem gerar conflitos entre colegas.

Quando essas diferenças passam a ser usadas repetidamente para humilhar, excluir ou intimidar, a situação precisa de intervenção.

Alguns sinais podem aparecer fora da escola

Nem sempre a criança conta diretamente o que está acontecendo.

Às vezes ela tem vergonha.

Pode ter medo de piorar a situação ou acreditar que os adultos não conseguirão ajudar.

Por isso, os pais geralmente percebem mudanças antes de ouvir uma explicação clara.

Uma criança que começa a evitar a escola, apresenta alterações importantes no humor, perde objetos com frequência, volta para casa com pertences danificados ou se afasta repentinamente de amigos pode estar passando por alguma dificuldade.

Dor de barriga ou dor de cabeça recorrente antes de ir para a escola também merece atenção, principalmente quando aparece junto com outras mudanças.

Nenhum desses sinais isoladamente comprova bullying.

Eles podem ter muitas outras causas.

O mais importante é perceber mudanças em relação ao comportamento habitual da criança e criar espaço para conversar sem transformar a conversa em um interrogatório.

Perguntar “estão fazendo bullying com você?” nem sempre funciona

A pergunta é direta, mas pode resultar apenas em um “não”.

Às vezes funciona melhor começar pelo cotidiano.

“Com quem você ficou no intervalo hoje?”

“Tem alguém na turma que está deixando você desconfortável?”

“O que acontece quando vocês fazem trabalho em grupo?”

“Teve algum momento hoje em que você gostaria que um adulto tivesse ajudado?”

Perguntas específicas facilitam a descrição de acontecimentos.

Também é importante ouvir antes de explicar o que a criança deveria ter feito.

Se ela começa a contar uma situação e imediatamente escuta que deveria ter reagido, ignorado ou se defendido, pode sentir que parte da responsabilidade está sendo colocada sobre ela.

O primeiro objetivo é entender o que aconteceu.

Depois vem a estratégia.

A escola precisa participar da solução

Bullying escolar dificilmente é resolvido apenas dentro de casa.

A escola precisa conhecer a situação, observar o que acontece nos momentos em que adultos estão menos presentes e estabelecer uma forma de acompanhamento.

No Brasil, a legislação determina que estabelecimentos de ensino adotem medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying. A Lei nº 14.811, de 2024, também ampliou as medidas de proteção de crianças e adolescentes contra violência em ambientes educacionais e incluiu bullying e cyberbullying no Código Penal. O texto da Lei nº 14.811 pode ser consultado no Portal do Planalto.

Na prática, os pais podem levar para a escola informações concretas.

O que aconteceu?

Quando?

Onde?

Quem presenciou?

Aconteceu uma vez ou está se repetindo?

Houve mensagens ou registros digitais?

Esse tipo de informação facilita a investigação e evita que a conversa fique apenas em versões vagas do que pode estar acontecendo.

Também vale combinar como a situação será acompanhada depois da primeira conversa. Uma reunião sem acompanhamento pode não ser suficiente quando o comportamento é recorrente.

O TDAH também precisa ser compreendido dentro da sala

Algumas dificuldades sociais podem piorar quando o comportamento da criança é interpretado apenas como falta de educação ou provocação.

Uma criança impulsiva pode interromper.

Pode responder antes de pensar.

Pode se frustrar rapidamente.

Isso não significa que todo comportamento deva ser ignorado.

Limites continuam sendo importantes.

Mas a forma como professores e outros adultos respondem pode influenciar bastante o clima da turma.

O CDC destaca estratégias escolares como manejo comportamental positivo, treinamento de organização, expectativas claras, feedback frequente e colaboração entre família e escola para ajudar estudantes com TDAH. Veja as recomendações do CDC para TDAH na sala de aula.

Quando a escola compreende melhor o transtorno, diminui a chance de uma dificuldade relacionada ao TDAH virar apenas um rótulo.

Apoiar não significa tentar mudar tudo na criança

Quando um filho está sendo excluído, é compreensível querer ensinar rapidamente como ele deveria falar, reagir ou se comportar para ser mais aceito.

Algumas habilidades sociais realmente podem ser desenvolvidas.

Mas existe um cuidado importante.

A criança não deve receber a mensagem de que precisa deixar de ser quem é para não ser maltratada.

Podemos ajudá-la a reconhecer situações desconfortáveis, procurar adultos de confiança, desenvolver habilidades de comunicação e construir amizades mais seguras.

Ao mesmo tempo, a responsabilidade pelo bullying continua sendo de quem pratica a agressão e do ambiente que precisa interrompê-la.

Atividades em que a criança se sente competente também podem ajudar a ampliar vínculos e fortalecer a confiança.

Esporte, arte, música, jogos ou outros interesses podem criar oportunidades de relacionamento fora do grupo em que o problema está acontecendo.

E se meu filho também estiver intimidando outras crianças?

Essa possibilidade também precisa ser considerada sem transformar a criança em um rótulo.

Pesquisas mostram que crianças e adolescentes com TDAH podem aparecer tanto como vítimas quanto em situações de agressão, embora a vitimização seja encontrada de maneira mais consistente.

Nesse caso, apenas punir pode não resolver.

É importante entender o que acontece antes das situações, como a criança interpreta as interações e quais habilidades ainda precisam ser desenvolvidas.

Isso não significa justificar agressões.

Significa responsabilizar e, ao mesmo tempo, tentar mudar o comportamento.

O próprio programa brasileiro de combate ao bullying prevê ações de orientação para vítimas e agressores e prioriza medidas que promovam responsabilização e mudança de comportamento.

Tecnologia também entrou nessa conversa

O conflito não termina necessariamente quando a criança volta para casa.

Mensagens, grupos, jogos on-line e redes sociais podem levar humilhações e exclusões para fora do ambiente escolar.

Isso torna o acompanhamento mais difícil porque o conteúdo pode circular rapidamente e permanecer acessível durante todo o dia.

Se houver cyberbullying, guardar registros pode ser importante.

Capturas de tela, datas, nomes de perfis e mensagens ajudam a mostrar o que ocorreu antes que o conteúdo seja apagado.

Também é uma oportunidade para conversar sobre privacidade e segurança digital sem simplesmente retirar toda a tecnologia da criança.

Em outro conteúdo do blog, mostramos como tecnologias e recursos podem ser usados para apoiar crianças com TDAH, especialmente em organização e rotina escolar.

Quando procurar ajuda profissional

Algumas crianças conseguem falar sobre a situação, recebem apoio e recuperam a segurança depois que o problema é interrompido.

Outras continuam demonstrando sofrimento mesmo após a intervenção da escola.

Mudanças intensas no humor, isolamento, medo persistente de frequentar a escola, alterações importantes de sono ou queda acentuada no funcionamento cotidiano merecem avaliação profissional.

O objetivo não é apenas fazer a criança voltar para a sala de aula.

É entender como aquela experiência a afetou.

Se também existirem dificuldades importantes de aprendizagem, vale investigar separadamente. TDAH não explica automaticamente todos os problemas acadêmicos. No artigo TDAH e Dislexia: Como Diferenciar e Ajudar Seu Filho, mostramos como essas condições podem aparecer juntas, mas exigem avaliações diferentes.

O mais importante é a criança perceber que não está sozinha

Quando uma criança sofre bullying, ela pode começar a acreditar que existe alguma coisa errada com ela.

Para quem já recebe críticas frequentes por distração, impulsividade ou dificuldades escolares, esse impacto pode ser ainda maior.

A resposta dos adultos faz diferença.

Ouvir, levar a situação a sério, envolver a escola e acompanhar o que acontece nas semanas seguintes transmite uma mensagem importante.

O problema não precisa ser enfrentado sozinho.

Proteger uma criança não significa impedir todos os conflitos que ela encontrará.

Significa garantir que situações repetidas de humilhação, exclusão ou violência não sejam normalizadas como parte inevitável da infância.

Referências e fontes

Ferreira RM et al. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Bullying in School Settings: A Narrative Review of Implications for Prevention and Intervention Strategies. 2026.
Acessar o estudo no PubMed

Abregú-Crespo R et al. School bullying in children and adolescents with neurodevelopmental and psychiatric conditions: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Child & Adolescent Health. 2024.
Acessar o estudo no PubMed

Centers for Disease Control and Prevention. Informações sobre TDAH no ambiente escolar e estratégias de apoio para estudantes.
Consultar o CDC

Brasil. Lei nº 13.185, de 6 de novembro de 2015. Institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática.
Consultar a legislação

Brasil. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Estabelece medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência em estabelecimentos educacionais e altera a legislação relacionada a bullying e cyberbullying.
Consultar a legislação

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