Terapia Digital para TDAH no Brasil: Como Funciona o Videogame Endeavor?

Imagine receber como parte do tratamento para TDAH uma orientação bastante diferente do habitual:

jogar videogame.

Não qualquer jogo, nem simplesmente usar um aplicativo de treinamento cerebral. Estamos falando de um software desenvolvido especificamente como terapia digital para TDAH, com sessões programadas, dificuldade ajustada automaticamente e estudos clínicos avaliando seus efeitos sobre a atenção.

Essa tecnologia já existe nos Estados Unidos e agora está mais próxima do público brasileiro.

Em outubro de 2026, a Eurofarma anunciou uma parceria para trazer ao Brasil a plataforma Endeavor, desenvolvida pela empresa norte-americana Akili. A proposta inclui uma versão destinada a adultos e outra para crianças e adolescentes.

Mas existe uma informação importante antes de continuar:

o Endeavor ainda não está liberado para comercialização no Brasil.

Segundo o anúncio da Eurofarma, os produtos estão em processo de submissão regulatória junto à Anvisa. Portanto, estamos falando de uma tecnologia que pode chegar ao mercado brasileiro após a avaliação regulatória, e não de um tratamento já disponível no país.

O que é uma terapia digital?

O termo pode causar certa confusão.

Um aplicativo de meditação, um jogo de memória e uma terapia digital não são necessariamente a mesma coisa.

As chamadas terapias digitais, conhecidas pela sigla DTx, utilizam softwares desenvolvidos para produzir uma intervenção terapêutica específica. Dependendo do produto e do país, podem passar por estudos clínicos e avaliação de órgãos reguladores de saúde.

No caso do Endeavor, a experiência parece um videogame, mas o jogo foi construído para exigir determinadas habilidades relacionadas à atenção.

Nos Estados Unidos, a tecnologia da Akili recebeu autorização regulatória como software terapêutico para TDAH. A FDA possui registros específicos tanto para a versão pediátrica EndeavorRx quanto para o EndeavorOTC, destinado a adultos.

Isso é bastante diferente de baixar qualquer jogo que promete “treinar o cérebro”.

Como o Endeavor funciona?

A lógica do jogo combina duas tarefas acontecendo ao mesmo tempo.

Enquanto controla um personagem ou veículo por um percurso, o jogador precisa identificar determinados alvos e ignorar distrações.

Parece simples, mas a dificuldade vai sendo ajustada.

O sistema acompanha o desempenho e modifica elementos como velocidade e complexidade para manter o desafio adequado ao usuário. A ideia é exigir continuamente processos relacionados à atenção seletiva e sustentada.

Na versão estudada com adultos, por exemplo, o protocolo envolveu aproximadamente 25 minutos por dia, cinco dias por semana, durante seis semanas.

Ou seja, não funciona como um videogame tradicional em que a pessoa simplesmente joga quanto quiser.

Existe uma proposta de utilização estruturada.

Videogame pode realmente melhorar a atenção?

Essa é provavelmente a pergunta mais importante.

Um dos principais estudos sobre a tecnologia avaliou 348 crianças de 8 a 12 anos com TDAH.

No ensaio clínico randomizado, os participantes utilizaram a intervenção digital ou um videogame educativo utilizado como controle.

Depois de quatro semanas, houve uma melhora estatisticamente significativa em uma medida computadorizada de atenção no grupo que utilizou a terapia digital.

Segundo os dados divulgados pela Eurofarma, 36% das crianças que utilizaram a intervenção passaram para uma faixa considerada normal em pelo menos um aspecto da função atencional avaliada pelo TOVA, contra 21% no grupo controle.

Isso é interessante, mas precisa ser interpretado corretamente.

Melhorar o desempenho em um teste de atenção não significa automaticamente que todos os sintomas do TDAH desapareceram.

TDAH envolve muito mais do que atenção.

Pode incluir impulsividade, organização, gerenciamento do tempo, memória de trabalho, dificuldades emocionais e impactos no funcionamento cotidiano.

E nos adultos?

A tecnologia também foi estudada em adultos.

Um estudo multicêntrico acompanhou 221 adultos com TDAH durante seis semanas. Os participantes utilizaram a intervenção digital em casa.

Entre os 153 participantes com dados suficientes para a análise principal, houve melhora significativa na medida objetiva de atenção utilizada no estudo. Também apareceram melhorias em escalas de sintomas e qualidade de vida.

Entretanto, existe uma limitação importante.

Esse estudo foi aberto e de braço único.

Ou seja, todos sabiam que estavam utilizando a intervenção e não havia um grupo controle equivalente sendo acompanhado ao mesmo tempo.

Isso torna os resultados promissores, mas menos fortes do que os de um ensaio clínico randomizado e controlado.

É exatamente por isso que devemos evitar manchetes como:

“Videogame cura TDAH.”

A pesquisa não mostra isso.

O Endeavor substitui medicamentos ou terapia?

Não.

A própria documentação regulatória norte-americana afirma que o EndeavorOTC não deve substituir outras formas de tratamento e pode fazer parte de um programa que inclua acompanhamento clínico, medicamentos e intervenções educacionais.

Esse ponto é fundamental.

A tecnologia não está sendo apresentada como uma alternativa que elimina automaticamente a necessidade de medicação ou psicoterapia.

Ela funciona melhor como uma possível ferramenta complementar.

Se você quiser entender melhor a diferença entre treinamento por jogos e outras tecnologias voltadas ao foco, veja também Neurofeedback x Jogos Digitais: O Que Realmente Ajuda a Melhorar o Foco no TDAH?.

O que exatamente vai chegar ao Brasil?

Segundo a Eurofarma, estão previstas duas versões.

Endeavor

Voltado para adultos.

Nos Estados Unidos, a versão correspondente é conhecida como EndeavorOTC e utiliza a mesma base tecnológica para trabalhar atenção em adultos com TDAH. O produto recebeu decisão regulatória 510(k) da FDA em junho de 2024.

EndeavorJR

Será destinado a crianças e adolescentes.

A tecnologia pediátrica é baseada no EndeavorRx, que recebeu autorização De Novo da FDA em 2020 e posteriormente teve sua faixa etária ampliada.

No anúncio brasileiro, a Eurofarma informou que ambos ainda estão passando pelo processo regulatório da Anvisa.

Até que esse processo seja concluído, não faz sentido informar preço, data definitiva de lançamento ou forma de acesso no Brasil.

Esses detalhes ainda podem mudar.

Isso é diferente dos jogos de treinamento cerebral?

Sim, e essa diferença merece atenção.

Aplicativos como jogos de memória, quebra-cabeças ou plataformas de treinamento cognitivo podem ser interessantes e estimulantes.

Mas isso não significa automaticamente que sejam tratamentos para TDAH.

Uma terapia digital precisa ser avaliada pela intervenção que realmente foi estudada.

Ficar melhor dentro de um jogo também não significa necessariamente que a habilidade será transferida da mesma forma para escola, trabalho ou rotina.

Esse é um ponto que já discutimos no artigo Jogos Online para TDAH: 7 Apps Que Ajudam a Melhorar o Foco e Reduzir a Ansiedade.

O Endeavor chama atenção justamente porque tenta avançar além dessa ideia genérica de “jogo cerebral”, utilizando um protocolo específico e submetendo a tecnologia à avaliação clínica e regulatória.

A terapia digital pode ser o futuro do tratamento do TDAH?

Talvez seja uma parte dele.

O interesse científico por intervenções digitais está crescendo rapidamente.

Uma revisão publicada em 2026 encontrou 35 ensaios clínicos em andamento avaliando diferentes intervenções digitais para TDAH, incluindo aplicativos, realidade virtual, programas computadorizados e plataformas online.

Isso mostra que existe um campo inteiro sendo construído.

Mas também significa que muitas perguntas continuam abertas.

Quais pacientes respondem melhor?

Quanto tempo os benefícios permanecem?

É necessário repetir o treinamento?

Os ganhos observados nos testes realmente se traduzem em melhorias importantes na vida cotidiana?

Como essas tecnologias devem ser combinadas com medicamentos, psicoterapia e outras estratégias?

Essas respostas ainda estão sendo desenvolvidas.

Um videogame pode ser tratamento, mas continua precisando de evidência

Talvez o aspecto mais interessante do Endeavor não seja simplesmente transformar tratamento em jogo.

É mostrar como a fronteira entre saúde e tecnologia está mudando.

Até pouco tempo atrás, pensar em um videogame avaliado por órgãos reguladores como intervenção para TDAH pareceria algo bastante distante.

Hoje, essa tecnologia já existe em outros mercados e está sendo preparada para avaliação no Brasil.

Isso não significa que qualquer aplicativo possa ser chamado de tratamento.

Também não significa que o Endeavor substituirá aquilo que já funciona.

A novidade está em outra direção.

Pela primeira vez, o público brasileiro pode estar próximo de ter acesso a uma terapia digital voltada especificamente ao TDAH, desenvolvida como uma intervenção clínica e não apenas como entretenimento.

Agora, o próximo passo será acompanhar a decisão da Anvisa.

Até lá, a melhor forma de olhar para o Endeavor é com duas coisas ao mesmo tempo:

curiosidade pela inovação e cautela com aquilo que a ciência ainda precisa descobrir.

Referências e fontes

Eurofarma. Eurofarma trará ao Brasil primeira terapia digital para TDAH aprovada pelo FDA. Publicado em 13 de outubro de 2026 e atualizado em 15 de outubro de 2026.

Acessar o anúncio oficial da Eurofarma

U.S. Food and Drug Administration. Registro regulatório do EndeavorRx e EndeavorOTC.

Registro do EndeavorOTC na FDA

Kollins SH et al. A novel digital intervention for actively reducing severity of paediatric ADHD (STARS-ADHD): a randomised controlled trial. The Lancet Digital Health.

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