Você abre o Instagram para responder uma mensagem.
Um Reels chama sua atenção. Depois vem outro. E outro.
Em algum momento surge aquela sensação de que já passou tempo demais, mas o próximo vídeo parece interessante. Quando finalmente olha para o relógio, os cinco minutos que você imaginava gastar ali viraram 30, 40 ou até mais.
Para quem tem TDAH, situações assim podem ser especialmente familiares.
Não significa que toda pessoa com TDAH tenha problemas com redes sociais, nem que vídeos curtos sejam necessariamente prejudiciais. O que chama atenção é a combinação entre um formato criado para manter o usuário assistindo e dificuldades que podem envolver controle de impulsos, gerenciamento do tempo e interrupção voluntária de uma atividade.
Uma pesquisa recente da Graz University of Technology, na Áustria, investigou justamente essa relação. Os resultados sugerem que pessoas com TDAH podem experimentar com mais intensidade aquilo que os pesquisadores chamaram de “armadilha do engajamento”.
O problema não é apenas gostar do conteúdo
Seria fácil explicar tudo dizendo:
“Vídeos curtos são interessantes, então as pessoas assistem demais.”
Mas isso deixa de fora uma parte importante.
TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts praticamente eliminam os momentos naturais de parada.
Você não precisa escolher outro vídeo.
Não precisa apertar “play”.
Não existe uma página dizendo que o conteúdo terminou.
Basta deslizar o dedo e uma nova possibilidade aparece imediatamente.
A pesquisa austríaca parte justamente dessa característica. Sistemas de recomendação aprendem quais tipos de vídeos despertam seu interesse e continuam oferecendo conteúdos cada vez mais alinhados ao que você provavelmente assistirá.
O curioso é que participantes com e sem TDAH consideraram as recomendações igualmente relevantes.
A diferença apareceu principalmente na capacidade de parar.
O que aconteceu com as pessoas com TDAH?
A pesquisa reuniu 302 adultos entre 18 e 73 anos.
Entre eles, 65 relataram possuir diagnóstico médico de TDAH, 85 disseram ter TDAH por autopercepção e 152 não relataram o transtorno. Os pesquisadores não tiveram acesso aos prontuários médicos, algo importante para interpretar os resultados.
As pessoas nos grupos de TDAH relataram com maior frequência:
- assistir por mais tempo do que pretendiam;
- dificuldade para interromper os vídeos depois de começar;
- perder a percepção de quanto tempo haviam passado assistindo;
- sentir frustração e culpa;
- arrepender-se do tempo gasto;
- perceber piora do humor após sessões prolongadas.
Esses resultados apareceram tanto entre participantes que relataram diagnóstico médico quanto entre aqueles que apenas se identificavam como tendo TDAH.
Isso não significa que a pesquisa tenha demonstrado que vídeos curtos “fazem mal ao cérebro com TDAH”.
O estudo foi baseado em questionários e relatos dos próprios participantes. Ele identifica diferenças importantes de experiência, mas não prova uma relação de causa e efeito.
Quando cinco minutos desaparecem
Um dos resultados mais interessantes envolve a percepção do tempo.
Muitas pessoas com TDAH descrevem dificuldade para perceber quanto tempo uma atividade está consumindo. A expressão popular “cegueira temporal” costuma ser usada para explicar parte dessa experiência.
Não é um diagnóstico separado.
Ela descreve situações como acreditar que uma tarefa levará dez minutos e gastar quarenta, entrar em uma atividade interessante e só perceber horas depois ou subestimar constantemente quanto tempo passou.
Os participantes com TDAH do estudo relataram maior dificuldade em perceber o tempo gasto assistindo aos vídeos. arXiv
E existe uma característica do próprio formato que pode piorar isso: quase não há marcos temporais.
Um episódio de série termina.
Um filme acaba.
Um capítulo chega à última página.
O feed de vídeos curtos simplesmente continua.
Para quem já tem dificuldade em acompanhar a passagem do tempo, a ausência de um ponto natural de parada pode tornar mais difícil perceber quando é hora de sair.
Se essa questão também aparece em outras partes da sua rotina, vale complementar com TDAH e Gestão do Tempo: Como Organizar o Dia sem se Sentir Sempre Atrasado.
A “armadilha do engajamento”
Os pesquisadores chamaram esse fenômeno de Engagement Trap, ou armadilha do engajamento.
A ideia é simples.
De um lado, existe um sistema muito eficiente em encontrar conteúdos que prendem a sua atenção.
Do outro, o usuário precisa fazer esforço consciente para interromper aquilo que continua sendo interessante.
Quanto melhor o algoritmo funciona, menos motivos aparecem para parar.
Para alguém que enfrenta dificuldades com autorregulação ou percepção do tempo, esse equilíbrio pode ficar ainda mais desigual.
Por isso, reduzir tudo a “falta de disciplina” pode ser uma interpretação pobre do problema.
Existe uma pessoa tomando decisões, claro.
Mas também existe um sistema desenhado para remover atritos e prolongar o consumo.
Por que bate arrependimento depois?
Essa parte da pesquisa também chama atenção.
Participantes com TDAH relataram mais frequentemente a sensação de terem gasto tempo que poderia ter sido usado em outra coisa. Também apareceram maior culpa, frustração e arrependimento depois de sessões prolongadas.
É fácil reconhecer o ciclo:
Você deveria começar uma tarefa.
Abre o celular “por alguns minutos”.
Perde a noção do tempo.
A tarefa continua esperando.
Percebe quanto tempo passou.
Fica frustrado por ter feito isso novamente.
O problema não termina quando o aplicativo fecha. A culpa pode entrar junto na próxima tarefa e tornar ainda mais difícil começar.
Se quiser aprofundar esse lado mais amplo das redes sociais, temos também TDAH e Redes Sociais: Como Evitar o Ciclo de Distração e Procrastinação. O artigo aborda notificações, procrastinação e uso consciente de forma mais geral. TDAH Mente Aberta
Então como criar um ponto de parada?
Uma parte interessante do estudo foi perguntar aos participantes o que achavam de possíveis mudanças no design das plataformas.
Entre as ideias estavam pausas obrigatórias, quantidade fixa de vídeos, indicador visual de tempo, lembretes de uso e até a retirada da rolagem infinita.
Esses recursos eram apenas propostas. Eles não foram implementados nem testados para descobrir se realmente reduziriam o tempo de uso.
Mesmo assim, a lógica pode ser útil para pensar na rotina.
Torne o tempo visível
Antes de abrir Reels, Shorts ou TikTok, programe um temporizador fora do aplicativo.
Não confie apenas na sensação de “vou ficar dez minutos”.
Faça os dez minutos aparecerem fisicamente.
Crie um número de vídeos em vez de um tempo abstrato
Para algumas pessoas, “vou assistir por 15 minutos” é difícil de acompanhar.
Pode ser mais concreto decidir:
“Vou assistir dez vídeos e parar.”
Você cria um final onde originalmente não existia nenhum.
Aumente um pouco o esforço para entrar
Retirar o aplicativo da tela inicial, desativar notificações ou até usar a versão pelo navegador cria alguns segundos entre o impulso e a ação.
Pode parecer insignificante, mas o objetivo é exatamente deixar de abrir a rede de forma completamente automática.
Evite vídeos curtos como pausa quando precisa voltar ao foco
Se você tem dificuldade para sair do feed, talvez Reels e TikTok não sejam a melhor pausa entre dois períodos de trabalho.
Uma pausa de cinco minutos pode se transformar facilmente em vinte.
Caminhar, beber água, alongar ou simplesmente sair da tela cria uma interrupção com um final mais definido.
Não precisa transformar o celular no inimigo
Vídeos curtos podem divertir, informar e até criar conexão entre pessoas.
O objetivo não precisa ser excluir todas as redes.
A pergunta mais útil é:
“Estou escolhendo continuar assistindo ou apenas não percebi que ainda estou aqui?”
Essa diferença é importante.
O estudo da Graz University of Technology não mostra que pessoas com TDAH sejam incapazes de controlar o celular. Também não demonstrou dependência clínica.
Ele mostra algo mais específico: quando sistemas de recomendação são construídos para maximizar engajamento, pessoas com TDAH relatam maior dificuldade para sair, maior perda da noção do tempo e consequências emocionais mais negativas. arXiv
O trabalho está disponível como preprint e foi aceito para apresentação na conferência internacional ASSETS 2026, dedicada a computação e acessibilidade. Portanto, os resultados são recentes e ainda merecem novas pesquisas, especialmente estudos que acompanhem o comportamento real de uso ao longo do tempo. ASSETS 2026
Talvez a solução não esteja em exigir cada vez mais autocontrole diante de um feed sem fim.
Pode estar em criar finais visíveis, pausas externas e pequenas barreiras que devolvam a decisão para você.
Porque, às vezes, o primeiro passo para recuperar o tempo não é aprender a resistir ao próximo vídeo.
É fazer com que exista um momento claro para parar.
Referências e fontes
Misirlic V, Mayr G, Lex E. Quantifying the Engagement Trap: Impact of Short-form Video Recommender Systems on Users with ADHD. 2026. arXiv
Graz University of Technology. Short-video algorithms as a digital trap for people with ADHD. Publicado em 8 de outubro de 2026. TU Graz




